Em 1969, Martyn Lloyd-Jones deu uma série de palestras para alunos do Westminster Theological Seminary, na Filadélfia. Ele tinha quase setenta anos. Tinha acabado de deixar o púlpito da Capela de Westminster, em Londres, depois de quase três décadas ali pregando. As palestras viraram livro em 1971, com o título Preaching and Preachers. E no Brasil, saiu como Pregação e Pregadores.
O livro não se coloca como um manual de homilética e ele quase não ensina técnica. Não traz modelos de esboço nem dicas de oratória. No entanto, o que ele faz é mais precioso e raro. Um pregador experiente explica a pregadores jovens o que é pregar, por que isso importa e o que acontece com a igreja quando ela esquece.
O médico que virou pregador
Lloyd-Jones era médico. Trabalhou como assistente de Lord Horder, médico da família real britânica, e tinha uma carreira brilhante pela frente. Em 1927, largou a medicina para pastorear uma pequena igreja em Aberavon, no País de Gales. Depois foi para Londres, onde ficou na Capela de Westminster até 1968.
Só isso já nos faz pensar sobre os pastores modernos buscando relevância de alguma forma, buscando prestígio e visando se tornarem autoridades em qualquer assunto que ainda não tem ninguém desenvolvendo. Raros são os que se preocupam de fato em pastorear e manejar bem a Palavra de Deus.
O Dr. Lloyd-Jones, como médio é percebido no livro inteiro. Ele pensa como clínico. O médico, diz ele, trata os sintomas de cada paciente. O pregador trata a doença que todos têm: o pecado e o orgulho contra Deus. Nos leva a entender que tanto o erudito e o operário sentam no mesmo banco da igreja com o mesmo diagnóstico. E é por isso precisam ouvir o mesmo evangelho.
O argumento
A tese cabe numa frase. A pregação é a tarefa principal da igreja, e nada a substitui.
Nos dois primeiros capítulos, Lloyd-Jones enfrenta as alternativas que já circulavam nos anos 60: aconselhamento, grupos de discussão, ativismo social, palestras, rádio e televisão. Podemos ver que a resposta dele é sempre a mesma e a necessidade do homem não mudou. O homem continua ignorante de Deus e rebelde contra ele. Isso não se resolve com duas ou três conversas no gabinete pastoral. Resolve-se com Deus falando por meio da pregação. Ele lembra que Jesus veio pregar, que os apóstolos se recusaram a deixar a Palavra para servir às mesas (Atos 6.2-4) e que todo avivamento na história da igreja veio junto com a volta da pregação. E essa, de forma bíblica e expositiva.
Depois ele separa duas coisas que costumamos misturar. O sermão é o conteúdo preparado no escritório. Já a pregação é o ato vivo no púlpito. Diferente do sermão, que tem forma, como uma sinfonia, e caminha do texto até um clímax e uma aplicação. A pregação precisa de algo mais. É aqui que aparece a definição mais famosa do livro:
pregação é lógica pegando fogo, teologia em chamas.
A partir do capítulo 6, o foco passa para o homem que prega. Não se pode definir pregadores como uma escolha de carreira. Mas, muito além disso
é um constrangimento interior, do tipo "não consigo fazer outra coisa", e precisa ser confirmada pela igreja. O pregador não deixa a congregação ditar o conteúdo. Não supõe que todo mundo no banco é convertido. E prepara a si mesmo antes de preparar o sermão: oração, leitura da Bíblia inteira todo ano pelo plano de Robert Murray M'Cheyne, puritanos e biografias.
Os capítulos sobre o sermão são bem práticos, mas sem fórmula. O ponto de partida é sempre o texto bíblico. Aqui abro um parêntese para falar das aulas que tive no seminário com o professor Gilson Santos, que de forma contundente alertava-nos sobre o dever de permanecer dentro do texto bíblico não forçando uma ideia pré-concebida ao texto. Mas, tudo deriva do texto, inclusive as divisões, não de uma regra de três pontos ou de aliterações espertas. Ilustrações servem para esclarecer, não para entreter, ou se demorar tomando boa parte da pregação. A respeito do humor, isso fica contido e espontâneo e por fim o relógio não manda no sermão.
No capítulo 14, ele critica o apelo ao altar, popularizado por Charles Finney. Para Lloyd-Jones, chamar as pessoas à frente ataca a vontade diretamente, por cima da mente e do coração. O apelo verdadeiro está dentro do sermão ou o apelo é o próprio sermão e a conversão é obra do Espírito.
O livro termina com a unção, muitos pentecostais vão se identificar. A imagem que ele usa é a de Elias no Carmelo. Elias arrumou o altar, cortou o novilho e colocou a lenha e o fogo veio de Deus. O preparo não substitui a unção, e a unção não dispensa o preparo, mas ela desce sobre ele.
O que o livro acerta
A pregação como encontro. O Dr. Lloyd-Jones não trata o sermão como uma simples transmissão de informação. Para ele, quando a Palavra é pregada, Deus está tratando com pessoas. Conforme vemos em Paulo, que pergunta como ouvirão sem haver quem pregue e conclui que a fé vem pelo ouvir a palavra de Cristo (Romanos 10.14-17). A Segunda Confissão Helvética dirá depois que a pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus. E o protagonista é Cristo que fala por meio dela e não o pregador.
A crítica ao apelo. Para quem crê na graça soberana, o capítulo 14 é um alívio. Ele mostra que método também ensina teologia. Um culto que termina com música alta e repetida, com pressão para levantar a mão ensina que a conversão depende da técnica. Não obstante, um culto que termina com a Palavra aplicada ensina que a conversão depende de Deus.
O pregador antes do sermão. O capítulo 9 deveria ser lido todo ano por quem prega, e eu falo sério. Ler a Bíblia para se alimentar, não para caçar texto que corrobora com a ideia que você quer falar. Uma tentativa de parecer expositivo, mas direcionar a pregação para o assunto que você quer falar, e não o que o Espírito quer dizer a igreja. Muitos podem argumentar que o que veio ao coração do pregador é o que o Espírito Santo quer falar. Mas isso é um erro terrível. O pregador lê o texto e explica o que o texto quer dizer. O pregador lê biografias para matar o orgulho. E anotar na hora o esboço que nasce durante a leitura devocional. Pode parecer um conselho simples, mas é eficaz e quase ninguém pratica.
Preparo e unção juntos. Há dois erros comuns no púlpito. Um confia só no estudo e entrega uma aula, isso enfada a audiência. O outro confia só no "mover" e entrega improviso e as chances de falar heresias, contradições e moralismos é altíssima. A imagem do altar de Elias corrige esses dois erros de uma vez.
Onde vale ponderar
O catecismo no púlpito. No capítulo 10, Lloyd-Jones rejeita a pregação a partir de catecismos. Eu tendo a quase concordar com ele, a fonte de inspiração é o texto bíblico, não estudos, catecismos e outros livros cristãos. Eles até podem serem usados como apoios, mas nunca em evidência no palco, uma citação ou outa talvez. Porém, a tradição reformada tem outra experiência. O Catecismo de Heidelberg foi dividido em 52 domingos justamente para ser pregado, e gerações de igrejas holandesas foram formadas assim. Um sermão catequético bem feito expõe os textos bíblicos que sustentam a pergunta do catecismo. O risco que ele aponta existe e eu consigo ver isso, mas a recusa total penso eu que vai longe demais. Talvez em uma plantação de igreja em seus primeiros anos em meu entendimento seria valioso demais.
A unção e o pano de fundo. Podemos dizer que o capítulo 16 é equilibrado. Mas em outras obras, como Joy Unspeakable, publicada depois da sua morte, Lloyd-Jones defende o batismo com o Espírito como experiência distinta e posterior à conversão. Quem lê a partir da Confissão de 1689 deve ler o último capítulo sabendo disso. A necessidade do poder do Espírito na pregação é bíblica. Mas, a teologia que ele constrói ao redor dela pede um pouco mais de discernimento e ponderações.
Os conselhos datados. Ele recomenda não anunciar os temas dos sermões com antecedência e desconfia de rádio e televisão. Em 2026, quase toda igreja transmite o culto e publica o sermão no YouTube. O princípio por trás continua válido: a transmissão não substitui a igreja reunida.
Pouca ajuda para quem começa. Lloyd-Jones trata a homilética técnica como secundária. Para um pregador com décadas de púlpito, isso até faz sentido. Mas, para um seminarista no primeiro sermão, não é o suficiente. O livro diz o que a pregação é. Para aprender a montar um sermão, você precisa de outros livros. Se você acha que para ser um bom pregador é só ler a bíblia eu lamento te informar, mas o trabalho é árduo, com muitas horas de leitura e dedicação.
Para quem é
Pastores e seminaristas são o público óbvio. Mas o livro serve também para presbíteros, professores de escola dominical e leigos que pregam de vez em quando.
E serve para quem só ouve também. O membro de igreja que lê Pregação e Pregadores aprende o que esperar do púlpito. E isso é muito bom, precisamos de mais e mais crentes piedosos e instruídos a fim de ajudar seus pastores em amor e também vigilantes quanto ao ensino em cima dos púlpitos. Assim, a igreja para de pedir sermão curto, engraçado e confortável e começa a orar pelo pregador no sábado à noite.
Vale a leitura?
Vale, com a mais absoluta certeza. Por todos os motivos que falei e por ser um clássico. Mesmo com as ponderações, poucos livros do século 20 levam a pregação tão a sério e dão a devida importância ao tema como este.
O maior mérito do livro, no meu entendimento, que é pífio, é tirar o pregador do centro. Lloyd-Jones gasta quinze capítulos falando de preparo, forma e postura. No décimo sexto, admite que nada disso basta. O púlpito não vive da eloquência de quem sobe nele, mas ela é a lenha, sem lenha e sem altar não tem fogo. Paulo disse aos coríntios que pregava Cristo crucificado, não em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder (1 Coríntios 2.2-4).
Esse é o resumo do livro. Reitero que o pregador arruma o altar e Cristo envia o fogo.
Ótima leitura!
Sobre Lucas Lauriano
Cristão, casado, engenheiro de software e seminarista no Seminário Martin Bucer. Formado em Sistemas de Informação, transito entre tecnologia e teologia, com muito rock’n roll como trilha sonora dessa dádiva chamada vida.



