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Fonte: acervo Protocolo95

Instrumentos nas Mãos do Redentor

· 9 min leitura

Quem já sentou no banco de uma igreja conhece a cena. Alguém passa por uma crise no casamento, no trabalho ou na fé. A igreja responde com uma frase simpática, uma promessa de oração e um encaminhamento ao pastor. O pastor, sobrecarregado, atende o que consegue. O restante fica sem ninguém, à deriva ou aos cuidados de outros membros, que muitas vezes, com seus próprios dilemas tendo que lidar com os problemas alheios.

Paul David Tripp escreveu Instrumentos nas Mãos do Redentor para mexer com essa rotina. Tripp é pastor e conselheiro bíblico americano, e o livro nasceu de anos de ministério pessoal. A tese cabe numa expressão que ele repete: todos os filhos de Deus, o tempo todo. Cada membro da igreja foi chamado para ajudar outros a crescer em Cristo.

Uma tese bíblica para o corpo de Cristo

Tripp parte de Efésios 4.11-16. Os líderes recebem a tarefa de equipar os santos para a obra do ministério, e é assim que o corpo cresce, quando cada parte faz a sua função. A igreja saudável tem muitos ministros, e a maioria deles nunca subiu ao púlpito.

A história de Sam ilustra bem. Sam encontrou um homem desamparado e o levou à casa do pastor, achando que tinha cumprido seu papel. Tripp o ajudou a ver o episódio de outra forma. Deus o havia posto naquele caminho para ser instrumento da graça, e Sam agia como um cano de passagem. O livro quer desfazer esse hábito de repassar o cuidado para os profissionais.

O diagnóstico: o coração em primeiro lugar

A primeira parte da obra trata do que está errado conosco e de quem pode consertar. Tripp descreve o pecado com três palavras: rebelião, tolice e incapacidade. A cena do filho de oito meses diante da tomada elétrica ficou na minha memória. O menino olha para o pai, confere se está sendo observado e estende a mão. Ninguém ensinou isso a ele.

Dois estudos de caso reforçam o ponto. Pamela sofreu abusos graves e carrega a história como explicação para tudo. Tripp reconhece a dor e mostra que ela também responde ao presente com controle, julgamento e autoproteção. Jack cresceu em lar cristão exemplar e se tornou um homem irado, com divórcios e demissões. A graça recebida por fora não resolveu o que estava por dentro. Em ambos os casos o ambiente pesa, e o coração decide a resposta.

O capítulo 4 sustenta o resto do livro. Tripp usa Lucas 6.43-45 para falar de raízes e frutos. Ele ri da prática de "grampear frutos", que seria prender maçãs boas nos galhos de uma árvore com raiz podre. O filho que repete na calçada as palavras que ouviu do pai dentro de casa mostra o que o autor quer dizer. A fala saiu do coração de Tripp antes de sair da boca do menino.

Aí entra a idolatria. Tudo o que governa o coração controla o comportamento. Parece até frase de Frank Hebert em Duna: Quem controla a especiaria, controla o universo. E é exatamente assim, tratando-se de pecado. O que controla o coração, controla todo o resto.

A confissão do violão de nove cordas é divertida e ao mesmo tempo dura. Numa palestra sobre incêndios, Tripp respondeu na hora que salvaria o violão, antes de pensar na família. Quem lê com honestidade acha o seu próprio violão.

O capítulo 5 traz a escada que desce do desejo até o castigo. Começa com um desejo legítimo, depois vira demanda, e por fim necessidade, expectativa, decepção e punição. A noite da refeição cubana mostra a escada em movimento. Tripp queria relaxar e ser admirado. A filha pediu carona, a esposa pediu compras, o filho pediu uma calculadora. O jantar acabou em explosão e amargura na sala. Tiago 4 explica o mecanismo: as brigas de fora vêm das guerras de dentro.

Os quatro movimentos do ministério pessoal

Daí em diante o livro ganha forma de método, o que é bom, ao meu ver. Tripp propõe quatro movimentos: amar, conhecer, falar e fazer.

Amar ocupa os capítulos 7 e 8. Ninguém abre o coração para quem trata a dor alheia com frieza. O instrumento entra no mundo do outro, como o Filho fez ao se encarnar, e se coloca ao lado de quem sofre, sob a mesma graça (Hebreus 2.10-11).

Conhecer vem nos capítulos 9 e 10. Aqui Tripp cobra paciência. Conversa de corredor de igreja não colhe dados do coração. É preciso fazer boas perguntas e ouvir até aparecerem as interpretações, os medos e os desejos por trás dos fatos. As emoções funcionam como janelas. O autor chama de "ganchos do coração" os pontos onde o comportamento se prende a um ídolo ou a uma mentira.

Falar ocupa os capítulos 11 e 12. A confrontação começa no exame do próprio coração de quem vai falar. Tripp pede que o conselheiro pergunte a si mesmo se está movido por irritação, orgulho ou vontade de ganhar a discussão. O alvo é levar a pessoa ao espelho da Palavra, onde ela vê o pecado, vê a santidade de Deus e encontra a suficiência da cruz.

Fazer fecha o livro, nos capítulos 13 e 14. Insight sem mudança de rotina evapora. As três perguntas do capítulo 13 ajudam: o que Deus está fazendo nesta pessoa, a que ele a chama, e quais passos concretos ela dará esta semana. A separação entre o que cabe a Deus (regenerar, transformar) e o que cabe ao homem (obedecer, confiar) protege contra dois erros, o de esperar tudo de si e o de esperar tudo de Deus sem mover um dedo. O último capítulo apresenta a identidade em Cristo e a prestação de contas amorosa como presentes da graça.

O que o livro tem de melhor

A primeira força é o centro cristológico. Tripp critica o uso da Bíblia como enciclopédia de versículos soltos para problemas pontuais. Para ele a Escritura é uma grande narrativa redentora e Cristo está no centro dela. Os "vergalhões" que sustentam a vida do crente são a soberania, a graça e a glória de Deus. Qualquer pregador reformado reconhece o terreno.

A segunda força é a honestidade do autor. Ele conta suas próprias falhas. O medo do membro que criticou sua pregação, a vergonha do cabelo verde do filho antes de uma conferência sobre família, a raiva com a senhoria. Em todos os casos o conselheiro aparece como pecador que precisa da mesma graça que oferece. Isso protege o leitor da pose de especialista.

A terceira força é a clareza. O livro é ilustrado e fácil de acompanhar. Os quatro elementos dão ao leitor um caminho que ele pode lembrar no meio de uma conversa difícil. A história do Johnny na festa da Susie vale um sermão. A mãe vira a cadeira do menino e diz: "A festa não é sua!". O drama inteiro do pecador cabe nessa cena.

Pontos de atenção

Uma obra desse tipo pede cuidado em alguns pontos.

O primeiro é o risco do método. Quatro passos organizados podem virar fórmula na mão de quem lê rápido ou quem adora um método. O livro mesmo avisa que o ministério pessoal nasce de amor e dependência. Quem aplicar o roteiro sem orar e sem ouvir vai repetir o erro que o próprio autor combate.

O segundo é a leitura do sofrimento. Tripp trata o coração como centro da batalha. O leitor, porém, precisa lembrar que casos de abuso, trauma e doença pedem acompanhamento mais amplo, com pastor, família e, quando for o caso, profissionais de saúde. O exemplo de Pamela deve ser lido com muita delicadeza. A responsabilidade moral dela no presente convive com o peso do mal que sofreu, e quem aconselha precisa carregar as duas verdades.

O terceiro é o contexto eclesial. O livro supõe uma igreja com liderança que equipa e supervisiona. Numa congregação onde ninguém cuida de ninguém, o leitor sozinho vai se sentir sobrecarregado. A obra funciona melhor lida em grupo, com os presbíteros à frente.

A quem recomendo

Recomendo a pastores que querem formar membros. Recomendo a líderes de pequenos grupos e professores de escola dominical. Recomendo também ao membro comum que percebe como tem terceirizado o cuidado. O livro serve bem como estudo em grupo, porque cada capítulo pede aplicação.

Quem busca um tratado acadêmico de aconselhamento vai achar a obra simples. O alvo dela é a igreja local e dar um rumo para quem tem ardente desejo pelo aconselhamento. Apenas uma pequena ressalva, entendo que, quem está apto à aconselhar é quem tem sólido conhecimento das doutrinas do evangelho e vive uma via íntegra.

Conclusão

Instrumentos nas Mãos do Redentor devolve ao povo de Deus um chamado que a igreja moderna esqueceu. Cristo é o Redentor, o Rei e o Conselheiro. Ele usa gente falha para levar a sua graça a outra gente falha. Tripp ensina a olhar para o coração, a ouvir com amor, a falar com verdade e a caminhar junto até que haja mudança.

Ótima leitura!

Sobre Lucas Lauriano

Cristão, casado, engenheiro de software e seminarista no Seminário Martin Bucer. Formado em Sistemas de Informação, transito entre tecnologia e teologia, com muito rock’n roll como trilha sonora dessa dádiva chamada vida.