Entre o poço e a eternidade: O encontro que revelou o Salvador

Fernando Shock

Fernando Shock

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João ainda está começando o seu Evangelho e parece ter um objetivo: Apresentar Jesus aos seus leitores. Ele faz isso com uma sequência de encontros significativos, entrelaçados com testemunhos que conectam um episódio ao outro. O capítulo 3, por exemplo, apresenta o encontro com Nicodemos (Jo 3:1-21), seguido pelo testemunho de João Batista (Jo 3:22–36). Ambos funcionam como preparação teológica para o que virá a seguir: João Batista não era o Cristo, mas apontava para Ele (Jo 3:28).

O quarto capítulo, assim como o anterior, é marcado por encontros mais intimistas como o que será o foco deste texto. Ainda que tudo pareça estar indo bem, uma frase chama a atenção neste relato, foi necessário que Jesus passasse por Samaria (v. 4). Essa necessidade não é meramente geográfica, mas teológica. Afinal de contas, a Samaria está, literalmente, no meio do caminho das províncias. Ainda que a viagem fosse mais longa, judeus evitavam cruzar a Samaria e optavam por uma passagem margeando o Rio Jordão ao leste da Samaria.

A rivalidade entre judeus e samaritanos tem origem na divisão do reino após a morte de Salomão, por volta do ano 932 aC, o reino foi dividido em dois: o Reino do Norte (Israel), e o Reino do Sul (Judá) (1Rs 12). Por decisão do rei Onri, Samaria tornou-se a capital política e religiosa do Reino do Norte. A situação se agrava após a conquista assíria em 722 aC, quando acontece uma política de deportação e reassentamento de povos estrangeiros (2Rs 17:6,24), que resultou na miscigenação étnica e sincretismo. Por isso, os judeus passaram a considerar os samaritanos impuros, especialmente por rejeitarem Jerusalém como único local legítimo de adoração e manterem culto no Monte Gerizim (v. 20). Este detalhe histórico é crucial para o tom da perícope de João 4.

Jesus chega a Sicar e, cansado da viagem, senta-se junto ao poço de Jacó por volta da hora sexta (meio-dia) (Jo 4:6). Enquanto os discípulos vão à cidade comprar comida (Jo 4:8), Ele encontra uma mulher samaritana e faz um pedido: “Dá-me de beber” (Jo 4:7). Ela estranha a intervenção, pois Jesus, sendo judeu, não falaria com uma samaritana (v. 9).

Jesus explica que há algo que deveria impressionar ainda mais a mulher: Ela estava falando com alguém que poderia presentear-lhe com “água viva” (v. 10). Ela aceita, entendendo que não precisaria mais atravessar uma cidade carregando um cântaro de água ao meio dia (v. 15). Jesus então conduz a conversa para um ponto mais profundo: “Vai, chama o teu marido” (v. 16). Aqui surge a tensão. A mulher já teve cinco maridos e agora vive com um homem que não é seu marido (vv. 17-18), por alguma razão que ela ainda não sabia, Jesus conhecia esta história e não a condenou por isto. Era como se Ele dissesse: Eu te conheço e sei porque você está aqui neste horário.

O desconforto da mulher fica nítido, ela não se justifica e muda o rumo do diálogo. Percebendo que estava diante de um “profeta“ (v. 19), ela decide perguntar onde deveria adorar a Deus, em Jerusalém ou ali no monte Gerizim (v. 20)? Talvez, ela também tenha tentado constranger Jesus tocando no ponto crucial da briga entre os dois povos. A resposta traz a conversa de volta para a relação entre homem e Deus. “os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (v. 23). Sem geografia, sem arquitetura. Essa declaração redefine o culto e inaugura a forma como adoramos até hoje. Não se trata mais de onde, mas de QUEM. Não é mais o lugar, mas a forma: em espírito e em verdade.

O uso do verbo grego ζητεῖ (Zetei), que pode ser traduzido como “busca” ou “procura continuamente” indica uma ação intencional de Deus: Ele está buscando adoradores que atendem ao Seu critério. Em paralelo, encontramos formas do verbo προσκυνέω (Proskineo / adorar), que em contexto original, dá uma ideia de prostração, um ato físico de humilhação. Isso revela a necessidade de nossa resposta à iniciativa Divina, colocando o adorador em sujeição diante do Deus dos judeus e dos Samaritanos. A samaritana ainda não conseguiu reverter a história. Ela queria água, não conseguiu; queria saber se adorava no ponto A ou B e Jesus apresentou outra forma.

O ponto alto da conversa acontece quando Jesus se revela como o Messias: “Eu o sou, eu que falo contigo” (v. 26), a primeira das ocasiões em que Ele faz esta afirmação de forma direta. É significativo que essa revelação seja feita a uma mulher samaritana marginalizada diante de tantos aspectos religiosos, sociais e morais. Isso reforça que a revelação divina não se limita às expectativas humanas.

Como resposta imediata, a mulher deixa seu cântaro, símbolo de sua necessidade inicial, e vai à cidade repercutir o encontro e sua mensagem é motivada por uma pergunta retórica que ela já conhece a resposta “Ele sabe tudo quanto tenho feito, [...] Será este, porventura, o Cristo?”(v. 29). O testemunho torna-se instrumento de evangelização e leva o Evangelho aos samaritanos, antes que os judeus o recebam (vv. 24, 39).

Ao reencontrarem Jesus, os discípulos demonstram outra preocupação. Assim como a mulher queria água, eles querem comida (v. 31). Jesus mantém o padrão pedagógico: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou” (v. 34). Jesus entendia a importância da sede e da fome deles, mas aponta para algo maior, a vida eterna. Enquanto eles comiam, Jesus os transformava em missionários, também, utilizando a metáfora da colheita (vv. 35-38) indicando que os campos já estão prontos, era como se dissesse: “Vocês estão esperando uma colheita? Então, olhem pro lado, tem um monte de samaritanos vindo até nós. Vocês estão colhendo onde não plantaram.”.

Na pregação de Sicar muitos creem por causa do testemunho da mulher (v. 39), mas consolidam sua fé nas palavras do próprio Jesus (v. 41). Esse movimento demonstra a dinâmica da fé cristã. A declaração dos samaritanos de que Jesus é “o Salvador do mundo” (v. 42) é significativa porque reforça a abrangência universal da missão de Cristo.

Esta perícope apresenta o método pedagógico de Cristo, que conduz de um entendimento superficial à revelação plena. Ao mesmo tempo, evidencia que o evangelho até pode estar preocupado com questões físicas e emocionais da humanidade, rompendo barreiras sociais e religiosas para alcançar os marginalizados, mas não os deixa ir embora sem anunciar “Quem está saciando sua sede e curando sua dor é o próprio Filho de Deus”. O impacto em Sicar confirma que o testemunho pode ser usado por Deus para levar outros à fé. Também é um texto que revela quem é Jesus e define o caráter e o alcance da nossa missão.

Referências Bibliográficas

Comentário Histórico Cultural da Bíblia

Comentário Histórico Cultural da Bíblia

Craig S. Keener, Vida Nova, 2017

Comentário de João

Comentário de João

D. A. Carson, Shedd Publicações, 2007

João: Introdução e comentário

João: Introdução e comentário

F. F. Bruce, Vida Nova, 1987

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Fernando Shock

Sobre Fernando Shock

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