O Espelho de Dostoiévski: A Lucidez no Subsolo
"Sou um homem doente... um homem mau. Um homem desagradável", confessou o narrador de Dostoiévski logo nas primeiras linhas de Memórias do Subsolo. O personagem — amargurado, mas terrivelmente lúcido — prefere a umidade e o isolamento de seu porão mental a participar do "Palácio de Cristal", aquela utopia da racionalidade onde o homem, uma vez bem instruído e civilizado, supostamente agiria sempre em favor do próprio bem.
Mas o homem do subsolo sabe que isso é mentira. Ele sabe que a natureza humana é capaz de cuspir no progresso e na lógica apenas para provar que ainda possui uma vontade própria, por mais destrutiva e rancorosa que ela seja. Todos nós temos o nosso subsolo, todos nós estamos doentes; ao ler as páginas do romance de Dostoiévski, é inevitável a comparação, sentir-se representado. É como olhar envergonhado diante de um espelho e perceber a sujeira de nossos corpos. Algo genial que o autor traz é a ideia de que uma pequena dose de consciência seria suficiente para ser doentia.
“Apesar de tudo, estou firmemente convencido de que não só uma dose muito grande de consciência, mas qualquer consciência, é uma doença. Insisto nisso.[…] Quanto mais consciência eu tinha do bem e de tudo o que é “belo e sublime”, tanto mais me afundava em meu lodo, e tanto mais capaz me tornava de imergir nele por completo” (Dostoiévski).
A Doença da Consciência: O Conhecimento sem Cristo
Esse é um retrato de nossa natureza caída e pecaminosa, que mesmo que possua ainda a imagem de Deus, que possua a capacidade racional, a consciência, a razão, essa não pode salvar-nos. O conhecimento sem Cristo apenas nos afunda cada vez mais em nosso lodo. O personagem confessa algumas páginas adiante que se considerava sempre mais inteligente que os outros ao redor; o conhecimento arrogante, destrutivo, doentio, é um conhecimento longe de Deus.
Mas mesmo nós, cristãos convictos, ao olhar para esse “homem do subsolo” podemos simpatizar, pois como formulara Lutero, somos “simul Justus et peccator” (simultaneamente justos e pecadores). E um sentimento muito semelhante é encontrado na carta de Paulo aos Romanos, no capítulo 7:
“15 Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. [...] 24 Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? 25 Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!”(Rm 7.15-25).
A Arena do Regenerado: Perspectivas da Tradição Reformada
Um debate pode ser levantado e foi levantado por muitos comentaristas: esse homem de Romanos 7 é Paulo? É outra pessoa? É Paulo falando de sua vida pré-regeneração? É um regenerado lutando contra seus desejos?
A questão da identidade do homem descrito em Romanos 7.14-25 percorre uma longa tradição de reflexão reformada e evangélica. Os autores consultados convergem de forma significativa: quase todos reconhecem nessa figura o apóstolo Paulo como homem já regenerado, e não alguém ainda alheio à graça.
Para Calvino, a passagem retrata a experiência normal da vida cristã, marcada por um conflito que jamais cessa. Seu raciocínio é que a profundidade da corrupção interior não se revela com tanta nitidez no homem que vive sem Deus — este simplesmente cede aos seus impulsos sem resistência —, e por isso Paulo recorre à própria experiência como regenerado para ilustrar esse combate. Segundo Calvino, o crente nunca se vê completamente livre do atrito com a carne; antes, a mortificação contínua o mantém em postura de humildade diante de suas próprias fragilidades.
John Murray desenvolve o argumento em termos mais precisos. A submissão interior — de coração e vontade — à lei de Deus é algo que o não-regenerado simplesmente não pode realizar. O ponto decisivo é que a pessoa de Romanos 7 deseja genuinamente o bem, e o mal que pratica contradiz sua inclinação mais profunda. John Stott capta essa tensão ao descrever a "dupla realidade" que habita o cristão: bem e mal coexistem numa mesma pessoa, ao mesmo tempo caída e renovada pela graça. J. I. Packer, herdeiro da tradição puritana, sublinha que a regeneração não elimina o conflito, mas o inaugura: o coração do crente se torna arena de uma luta incessante entre carne e espírito.
Cartógrafos do Porão: De Agostinho a Lutero
Portanto, é seguro dizer que Paulo está falando de um dilema comum a um regenerado. E é sobre esse “subsolo", essa natureza que somente será transformada na glorificação, que nos referimos. Esta consciência do subsolo — essa lucidez dolorosa sobre o que somos por dentro — atravessa séculos de confissão cristã.
Agostinho foi talvez o primeiro grande cartógrafo desse território interior. Quando Deus o colocou diante de si mesmo, o que ele encontrou não foi nada agradável: "Como eu sou feio, desfigurado e sujo, cheio de manchas e úlceras. Eu estava horrorizado, sem saber para onde fugir de mim mesmo". Para ele, a enfermidade humana não é superficial; é radicular. O combate, segundo o bispo de Hipona, é vitalício: "Sempre será necessário lutar, já que a inclinação para o mal, com a qual nascemos, não pode ser extinta enquanto vivemos".
Mais de mil anos depois, Lutero chegaria à mesma conclusão. Para o reformador, o pecado que permanece no crente é um "hóspede indesejado" que habita em nosso território. Não há trégua. A carne, dizia Lutero, "é algo vivo, em constante movimento". E sua sentença era categórica: "O pecado pode ser abafado, mas jamais aniquilado por completo, senão pela morte física".
A Anatomia da Corrupção: A Resposta da Graça à Miséria Humana
Essa mesma percepção reaparece em vozes posteriores. Blaise Pascal não poupou a vaidade humana: "Somos mentirosos, temos duas caras e vivemos sob disfarces". O reformador escocês John Knox foi ainda mais cirúrgico ao expor o que se esconde debaixo da piedade aparente: resquícios de ambição, cobiça e vanglória que não agradam a Deus. E Emil Brunner ofereceu a imagem mais incômoda: o pecador é aquele que é "podre no cerne e infestado de podridão".
O que todos esses homens têm em comum é a recusa em maquiar o subsolo. Cada um desceu ao porão da condição humana e descreveu o que viu sem eufemismos. E é justamente essa honestidade que prepara o terreno para o Evangelho. Porque a graça não foi projetada para quem se julga saudável, mas para quem, como Paulo, reconhece a doença e clama pela libertação.
No fim das contas, a maior tragédia do "Palácio de Cristal" moderno não é apenas a sua artificialidade, mas a sua absoluta impotência. Ele tenta curar com cosmética o que só se resolve com crucificação. Reconhecer-se no porão não é um exercício de morbidez, mas de integridade. Somente quando paramos de negar a podridão no cerne é que o brado de Paulo deixa de ser um conceito teológico para se tornar um grito de sobrevivência. O Evangelho não é um manual de decoração para o nosso subsolo; é a mão que invade a nossa escuridão, ignora as nossas máscaras e nos arranca de nós mesmos. A glória de Cristo brilha com mais força sobre os destroços da nossa declarada miséria. O subsolo é o fim do homem, mas é o começo do encontro com Deus.
Referências:
- DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo. Tradução de Boris Schnaiderman. 6. ed. São Paulo: Editora 34, 2009. p. 19.
- THORSEN, Don. Calvino versus Wesley. Trad. Wellington C. Mariano. Natal: Editora Carisma, 2018. p. 147–148.
- MURRAY, John. Romanos: Comentário Bíblico. Trad. João Bentes. São José dos Campos: Editora FIEL, 2016. p. 321–322.
- STOTT, John. Lendo Romanos com John Stott. Trad. Valéria L. D. Fernandes. Viçosa: Ultimato, 2018. p. 102–103.
- PACKER, J. I. Entre os gigantes de Deus. Trad. Editora Fiel. São José dos Campos: Editora FIEL, 2016. p. 324.
- CÉSAR, Elben M. Lenz. Por que (Sempre) Faço o que Não Quero?. Viçosa: Ultimato, 2011.
Referências Bibliográficas
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Sobre Pedro Henrique Freitas Silva
Marido da Calita e pai do Isaac e do Rafael, é cristão em constante reforma. Bacharel em Teologia e futuro mestrando no The Master’s Seminary em Los Angeles (2026). Atua como professor de musicalização e violão/guitarra, transitando entre a solidez das Escrituras e o universo da cultura geek, movido a animes e muito rock n' roll.







