Em 31 de outubro de 1517, um monge e professor de Wittenberg, na Alemanha, afixou na porta da igreja do castelo o Debate para o esclarecimento do valor das indulgências, que ficou conhecido como as 95 teses. E é de lá que vem a inspiração para o nome deste blog. Em duas semanas o texto estava impresso e circulando pela Alemanha. E em apenas dois meses, se espalha pela Europa inteira, e essa data passa a ficar conhecida como o marco inicial da Reforma Protestante.
O mundo antes da Reforma
Na Idade Média, a Igreja de Roma controlava boa parte da vida europeia. A Igreja Católica indicava governantes, cobrava impostos e entrava em guerras, tudo em nome de Deus e sua santidade, o papa. Nos séculos anteriores a Lutero esse poder já vinha enfraquecendo. Alguns Reis fortes desafiavam Roma e a imprensa de Gutenberg barateou os livros, inclusive a Bíblia. E o Renascimento ensinou muita gente a examinar as coisas por conta própria.
Ao mesmo tempo, a Igreja precisava de dinheiro, geralmente vinha através de doações, porém, a venda de indulgências virou uma fonte de renda. A Igreja Católica a utilizava para custear construções monumentais, como catedrais, mosteiros, hospitais, pontes e, de forma mais célebre no século XVI, a reconstrução da Basílica de São Pedro em Roma, sob o papado de Júlio II e Leão X. O que era para ser uma oferta voluntária ligada ao arrependimento transformou-se, com frequência, em um comércio explícito. Pregadores itinerantes (como o dominicano Johann Tetzel) usavam discursos apelativos para associar o pagamento diretamente à salvação das almas ou à libertação de entes queridos do purgatório. Para Lutero, aquilo era uma perversão do evangelho.

Lutero
Martinho Lutero (1483-1546) estudava direito em Erfurt quando uma tempestade violenta o deixou apavorado com a morte. Em 1505 entrou num mosteiro agostiniano. Ali ele fez jejuns, confissões e penitências, e continuou sem paz. A partir de 1512, já doutor em teologia, passou a ensinar em Wittenberg os Salmos e as cartas aos Romanos, Gálatas e Hebreus.
No entanto, foi estudando Romanos que tudo mudou. Ele contou que pensou dia e noite até enxergar a ligação entre a justiça de Deus e a frase “o justo viverá pela fé”. Entendeu então que a justiça de Deus é a que ele dá ao pecador, por graça e misericórdia. Disse que se sentiu renascido, como se tivesse atravessado as portas do paraíso. Chamou essa doutrina de “o artigo pelo qual a igreja se mantém de pé ou cai”.
Depois das teses, tudo andou muito rápido. Já em 1518, o príncipe Frederico, da Saxônia, passou a protegê-lo. Em 1520, Lutero queimou a bula papal que o ameaçava de excomunhão. Em abril de 1521, foi chamado a Worms diante do imperador Carlos V e mandaram que se retratasse. A resposta dele ficou na história: “A não ser que alguém me convença pelo testemunho da Escritura Sagrada ou com razões decisivas, não posso me retratar. (...) Minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Não posso e não quero retratar-me. Que Deus me ajude. Amém.”
A essa altura a Reforma já tinha ganhado peso político, e isso apareceu em 1529, quando os príncipes alemães que apoiavam Lutero se recusaram, de forma solene, a aceitar uma resolução que proibia as reformas em seus territórios. Foi desse protesto que nasceu o nome “protestantes”. Mas a influência de Lutero chegou ao povo comum por outro caminho, que foi a tradução da Bíblia inteira para o alemão, feita por ele com uma equipe de colaboradores e publicada completa em 1534, o que colocou as Escrituras na língua das pessoas pela primeira vez. É importante mencionar ainda que Lutero escreveu hinos para que a congregação pudesse cantar a fé que passara a ler, e um deles, “Castelo forte é nosso Deus”, ficou conhecido como o hino de batalha da Reforma.
Os outros reformadores
Embora Lutero seja o nome mais lembrado, a Reforma não ficou restrita a Wittenberg, e logo outros homens assumiram a frente do movimento em diferentes lugares. Na própria Alemanha, Filipe Melâncton, amigo de Lutero, assumiu a liderança luterana depois da morte dele. Na Suíça, Ulrico Zuínglio (1484-1531) pregava em Zurique e deu início ao que viria a ser a tradição reformada. Em 1529, os evangélicos alemães e suíços tentaram se unir no Colóquio de Marburgo, mas Lutero e Zuínglio divergiram sobre a Ceia e cada tradição seguiu seu caminho. Pouco tempo depois Zuínglio morreu na batalha de Kappel, e Henrique Bullinger assumiu o lugar dele, tornando-se o autor da Segunda Confissão Helvética.

Quem levou essa tradição mais longe foi João Calvino (1509-1564), da segunda geração da Reforma, quando o movimento já estava fragmentado e sob forte pressão do catolicismo. Calvino se converteu em 1533 e teve de fugir da França por causa das suas convicções. Ao passar por Genebra, foi pressionado por William Farel a ficar e ajudar na obra, mas o rigor das reformas que os dois propuseram acabou levando à expulsão de ambos. Calvino foi então pastorear uma igreja de refugiados franceses em Estrasburgo, onde conheceu Martin Bucer, que influenciou profundamente seu pensamento sobre o Espírito Santo e a disciplina da igreja. Em 1541, diante do caos moral, social e espiritual de Genebra, foi chamado de volta, e dessa vez permaneceu. Ali pregou quase todos os dias e escreveu as Institutas da Religião Cristã, que chegaram a 1.500 páginas na edição final de 1559. Genebra também se tornou um grande centro missionário, e em 1561, o ano de maior envio, mais de cem missionários saíram de lá para outros países. Não é à toa que o escocês John Knox chamou a cidade de “a mais perfeita escola de Cristo que jamais houve na terra desde a época dos apóstolos”. Quando Calvino morreu, pediu que nenhuma lápide fosse colocada sobre o seu túmulo, e suas últimas palavras foram que lhe bastava viver e morrer para Cristo.
O que eles ensinavam
Apesar das diferenças entre essas tradições, os reformadores partilhavam uma base comum que eles mesmos faziam questão de afirmar. Eles não se viam como inventores de uma nova religião e, por isso, subscreviam os credos da igreja antiga, os de Niceia (325), Constantinopla (381) e Calcedônia (451), além do Credo dos Apóstolos e do Credo de Atanásio, nos quais estavam a Trindade e a plena divindade e humanidade de Cristo.
O que a Reforma acrescentou, em resposta aos debates da sua época, ficou registrado em confissões de fé. Os luteranos têm o Livro de Concórdia, e os reformados do continente europeu têm o Catecismo de Heidelberg, a Confissão Belga, a Confissão de La Rochelle e a Segunda Confissão Helvética. Na Inglaterra surgiram os Artigos da Religião e, mais tarde, a Confissão de Fé de Westminster, com seus dois catecismos. Dentro da tradição reformada, o ensino sobre a salvação foi resumido em cinco pontos, que são a depravação total, a eleição incondicional, a expiação definida, a graça irresistível e a perseverança dos santos, todos eles apoiados na soberania de Deus sobre toda a realidade. E por trás de todos esses documentos, o coração da mensagem pode ser resumido em cinco expressões latinas, conhecidas como os cinco solas, ou os cinco “somentes”.
Os cinco solas
O primeiro deles é a Sola Scriptura, somente a Escritura. Quando Lutero disse em Worms que sua consciência estava cativa à Palavra de Deus, ele estava afirmando que a Bíblia é a única regra de fé e prática da igreja. Para os reformadores, a igreja recebe sua validade da Escritura, e a Escritura dispensa o aval da igreja, de modo que a Bíblia se interpreta pela própria Bíblia, e a tradição e os pais da igreja são ouvidos como servos dela. Calvino ensinava que Deus, ao falar conosco, se ajusta à nossa capacidade, como as amas que balbuciam com as crianças, e é por isso que palavras humanas bastam para Deus se revelar.
E aquilo que a Escritura revela, do começo ao fim, é o Solus Christus, somente Cristo. Ele é o único mediador entre Deus e os homens, e toda a Bíblia caminha em direção à cruz, onde o evangelho se cumpre: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; e foi sepultado; e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15.3,4).
Isso nos leva à pergunta de por que a cruz era necessária, e a resposta está na Sola gratia, somente a graça. A Escritura descreve o homem sem Cristo como morto em delitos e pecados (Ef 2.1-3), e Calvino escreveu que o coração, tomado pelo veneno do pecado, só produz os frutos dele. O homem peca livremente, porque quer pecar, e justamente por isso não consegue se libertar sozinho, de modo que a salvação começa e termina em Deus, pela obra poderosa do Espírito Santo.
Resta saber como essa graça chega até nós, e a resposta da Reforma é a Sola fide, somente a fé. “O justo viverá pela fé” (Rm 1.17) foi o texto que deu paz a Lutero, e ele ensina que Deus declara justo o pecador e põe na conta dele a justiça de Cristo, que é recebida pela fé. Franklin Ferreira descreve essa fé como estender mãos vazias em direção ao Cristo crucificado, e compara com um mendigo que estica a mão para receber um prato de comida, já que o mérito está em quem serve o prato. Calvino definiu a fé como “o firme e seguro conhecimento da divina benevolência para conosco, fundado sobre a veracidade da promessa graciosa feita em Cristo”, e deixou claro que essa fé jamais vem vazia de boas obras, pois a obediência é o fruto dela.
Se a Escritura, Cristo, a graça e a fé vêm de Deus, o último sola é a conclusão natural, o Soli Deo gloria, glória somente a Deus. A salvação nasce do propósito dele, da cruz do Filho e do dom da fé, e por isso a glória toda lhe pertence. O Catecismo de Genebra diz que Deus nos criou para ser glorificado em nós, e o Breve Catecismo de Westminster ensina que o fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.
Esse ponto aparece com força na resposta de Calvino ao cardeal Sadoleto, em 1539. O cardeal tinha escrito aos genebrinos pedindo que voltassem a Roma e gastou um terço da carta falando da bem-aventurança eterna. Calvino respondeu que é um erro prender o pensamento do homem ao próprio destino, porque nascemos antes de tudo para Deus, e o zelo pela glória dele vem antes de qualquer preocupação com o nosso benefício. Na mesma carta, ele afirma que a igreja que defende é a que venera a Palavra de Deus e se submete à sua autoridade, e nas Institutas chegou a chamar a justificação de principal eixo sobre o qual a religião gira.
O Brasil precisa ouvir isso de novo
Passados mais de quinhentos anos, resta perguntar onde está a igreja brasileira diante de tudo isso. Franklin Ferreira, em Pilares da Fé, cita o teólogo e mártir Dietrich Bonhoeffer, que falava de um “protestantismo sem Reforma”, ou seja, igrejas que carregam o nome e perderam o conteúdo. Para o professor Franklin, a descrição serve para o Brasil de hoje, porque grande parte dos evangélicos brasileiros entende o cristianismo como aquilo que se faz para Deus. Lutero escreveu exatamente o contrário, que o nome de cristão vem de tomar, buscar e deixar-se presentear por Cristo, e que quem passa a olhar para o que faz já deixou de ser cristão.
Quando se olha para os cinco solas, dá para entender perfeitamente onde cada um se perdeu, e as perdas também formam uma sequência. Tudo começa pela Escritura, que em muitas igrejas virou acessório. O que um bispo ou apóstolo ou semi-deus diz ter recebido em revelação passa a pesar mais que o texto bíblico, e basta juntar algumas frases piedosas e meias verdades a um vocabulário religioso para que qualquer ideia seja aceita como cristã. O selo gospel de qualidade bíblica duvidosa. O crente, que deveria examinar as Escrituras todos os dias para ver se as coisas são assim (At 17.11), acaba seguindo o líder. Eu sempre falo que hoje temos acesso a mais materiais sobre a Bíblia do que em qualquer outro período da história. Ainda assim, parece haver cada vez menos conhecimento bíblico nas igrejas e menos disposição para buscá-lo. Isso torna ainda mais difícil justificar nossa negligência em conhecer as Escrituras. Se baixarmos ainda mais a régua, encontraremos crentes que sequer leem a Bíblia diariamente..
Sem a Escritura no centro, Cristo inevitavelmente deixa de ocupar o lugar que lhe é devido. No entanto, João 3:30 nos aponta para uma direção completamente oposta: "É necessário que ele cresça e que eu diminua". Atualmente, ouvimos falar de Cristo como professor, curandeiro, mentor, libertador e alívio para a alma cansada. Enquanto isso, a cruz acaba se tornando um mero detalhe, quando sequer é mencionada. E, sim, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nos ensina como um mestre cheio de amor, cura nossas enfermidades, liberta-nos do domínio do pecado e sustenta nossa alma abatida.
Contudo, não podemos reduzir o evangelho à busca por alívio e bem-estar nesta vida. O evangelho anuncia algo infinitamente maior: a redenção de pecadores por meio da obra de Cristo, nossa reconciliação com Deus e a glória do próprio Deus como fim último de todas as coisas. Da mesma forma, quando um pastor se apresenta como o canal indispensável pelo qual as bênçãos de Deus precisam chegar aos fiéis, acaba ocupando um lugar que a Escritura reserva exclusivamente a Cristo: o de único Mediador entre Deus e os homens (1 Timóteo 2:5). O pastor é servo da Palavra, não seu substituto; é instrumento nas mãos de Deus, não mediador da graça.
Em 1517 o perdão tinha um preço definido, finito e corruptível, e hoje, em muitas igrejas, a bênção também tem um preço. Somente mudou o vocabulário (semente, campanha, oferta de sacrifício), mas a lógica é a mesma, a de que se você der, Deus fica obrigado a devolver. A fé, nesse modelo, passa a ser uma força que move Deus, e o professor Franklin Ferreira usa o próprio Abraão para desmontar essa ideia, perguntando por que Deus precisou renovar a aliança com ele várias vezes, se tinha uma fé tão grande, e por que ele mentiu duas vezes dizendo que Sara era sua irmã, por medo. A fé que salva pode ser fraca, desde que descanse no Cristo crucificado.
No fim das contas, a glória muda de dono. Na pregação de autoajuda o assunto é o fiel, com sua prosperidade, sua autoestima e seu crescimento emocional, e o culto vai virando espetáculo. Muita gente vai à igreja aos domingos como iria a qualquer outro ajuntamento de pessoas, e a palavra “evangélico” se desgastou tanto que hoje descreve gente que conserva pouco ou nada das grandes afirmações da Reforma. Não obstante, a Igreja, santa, remida e sem mancha é confundida com movimentos políticos que em nada se parece ao evangelho.
Seria injusto, porém, apontar o dedo para apenas um lado. Muitas denominações históricas também deixaram de lado, ou passaram a tratar como secundárias, as confissões de fé que herdaram dos reformadores. Isso demonstra que o problema atravessa as mais diversas tradições denominacionais. Afinal, Satanás continua agindo e buscando aqueles a quem possa tragar (1Pe 5:8).
Sempre sendo reformada
Existe um lema latino que resume bem o que precisamos hoje, Ecclesia reformata semper reformanda est secundum verbum Dei, que significa que a igreja reformada está sempre sendo reformada conforme a Palavra de Deus. O autor Franklin Ferreira destaca que o verbo está na voz passiva, ou seja, a igreja é reformada pelo Espírito Santo, por meio da Escritura. O puritano Richard Baxter perguntou, em outro contexto, como alguém podia achar que a reforma estava terminada só porque trocou algumas cerimônias, trajes e gestos, e concluiu que a reforma de verdade é converter e salvar almas.
Voltar à Reforma, portanto, é voltar ao mesmo lugar para onde os reformadores voltaram, à Bíblia aberta, com Cristo crucificado no centro, a graça recebida de mãos vazias e a glória toda para Deus. Foi isso que Lutero encontrou em Romanos e é isso que a igreja brasileira precisa ouvir de novo e de novo até o retorno de Cristo.
Louvado seja Deus!
Referências Bibliográficas

Os Pilares da Fé
Franklin Ferreira, Vida Nova
Esta obra apresenta os temas mais importantes que foram redescobertos pela Reforma protestante do século 16: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola gratia, Sola fide e Soli Deo gloria.
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Sobre Lucas Lauriano
Cristão, casado, engenheiro de software e seminarista no Seminário Martin Bucer. Formado em Sistemas de Informação, transito entre tecnologia e teologia, com muito rock’n roll como trilha sonora dessa dádiva chamada vida.


