Neste domingo, 4 de outubro, o Brasil vai fazer no Dia do Senhor aquilo que o Brasil sempre faz: escolher quem vai carregar a espada por 4 anos. Obviamente, não quero aqui nessas poucas palavras problematizar o votar no "sábado" cristão, tampouco esse texto é sobre teologia moral e os 10 mandamentos, muito embora esteja relacionado.
O que desejo expressar é que vamos usar o dia separado para adorar a Deus para depositar esperança em um homem. E aí surgem alguns questionamentos que gostaria de tratar. Primeiro, exercer a cidadania de votar é adorar a Deus? E estamos adorando a Deus quando votamos em representantes de ideologias que ferem princípios bíblicos? Pecamos quando discutimos com aquele irmão que claramente escolhe o candidato que representa tudo que é mal? E dou um passo atrás, o que é o mal? É possível relativizar isso? Pode existir meio mal ou quase?
Mais uma vez o mundo mudou de século, Pra variar quase nada mudou (Fruto Sagrado, "Quase")
A banda Fruto Sagrado tem uma música chamada "Quase" que cabe bem nessa conversa. A letra diz que quase não satisfaz ninguém, que não existe quase santo, quase livre, quase sal, e termina com a frase de que só o medíocre gosta do quase, porque o medíocre é quase alguém. Daí vem o título deste texto. No domingo de eleição, o crente brasileiro acorda, vai à igreja, canta, ouve a Palavra e confessa Cristo como Senhor. Algumas horas depois está na fila da urna esperando que um homem resolva o que ele acabou de dizer a Deus que só Deus resolve. Ele não deixou a fé em casa, mas também não a levou inteira. Com um pé no culto e outro no ídolo, fica quase crente e quase pagão. Em Mateus 6:32, Jesus estabelece algumas preocupações cotidianas, e por fim ele diz que são os pagãos que se preocupam com tais coisas. Pois eles não têm o entendimento que é o próprio Deus quem sustenta a criação, dos pássaros aos lírios, muito mais não nos sustentaria?. E é sobre esse QUASE pagão que quero falar.
A Bíblia não manda você fugir da política
Como cristãos reformados, sabemos que o Estado é uma ordenança de Deus. Isso me faz lembrar da frase de Abraham Kuyper no discurso de fundação da Vrije Universiteit Amsterdam: "Não há um centímetro quadrado em todo o domínio de nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano de todos, não clame: É meu!" Paulo já havia escrito aos Romanos que não há autoridade que não venha de Deus e que o magistrado traz a espada para punir o que faz o mal (Rm 13.1-4 ARA).
A Confissão Batista de Fé de 1689 diz a mesma coisa no capítulo 24. Deus, o Senhor supremo de todo o mundo, estabeleceu magistrados civis sob ele, para a sua glória e para o bem público, e é lícito ao cristão ocupar o cargo de magistrado quando para isso for chamado.
Ou seja, abster-se não torna ninguém mais santo. Quem votou escolheu quem vai carregar a espada sobre o seu vizinho, e quem não votou deixou que outros escolhessem por ele. Em ambos os casos o vizinho sente o peso da espada, e isso passa a ser amor ou desprezo por ele.
Os critérios da Bíblia
Quando Jetro orienta Moisés a escolher líderes, ele dá quatro medidas: homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade e que aborreçam a avareza (Êx 18.21). Moisés repete a lista em Deuteronômio 1.13, falando de homens sábios, inteligentes e experimentados. Em Deuteronômio 16.19 vem a proibição de torcer o direito, fazer acepção de pessoas e aceitar suborno, porque o suborno cega os olhos dos sábios.
Veja o que ficou fora da lista de Jetro. Ele não menciona partido, nem chance de vitória, nem o quanto o candidato irrita quem você detesta.
Agora faça o teste com o nome que você escolheu. Ele é competente ou só faz barulho? Teme a Deus ou apenas cita Deus? Fala a verdade ou administra narrativas? Aborrece a avareza ou vive perto dela sem incômodo algum?
Isaías dizia dos governantes do seu povo que eram companheiros de ladrões e que todos amavam o suborno (Is 1.23). Salomão escreveu que, quando os justos governam, o povo se alegra, e quando o ímpio domina, o povo suspira (Pv 29.2). E Jeremias, elogiando o rei Josias, diz que ele julgou a causa do aflito e do necessitado, e pergunta: "Não é isso conhecer-me? diz o Senhor" (Jr 22.15-16).
Seja honesto, nenhum candidato passa inteiro nesse teste. Todos ficam no quase: quase competentes, quase tementes, quase honestos. Por isso seu voto vai para o menos injusto, porque ninguém ali é justo. Quem entende isso vota com a mão aberta, e quem não entende vota com a alma.

Onde a idolatria entra
Israel pediu um rei para ser como as outras nações, e a resposta de Deus a Samuel foi dura: "não é a ti que rejeitam, mas a mim" (1Sm 8.7). Samuel avisou o que aquele rei faria. Tomaria os filhos, as filhas, as colheitas (1Sm 8.11-18). Todo ídolo cobra caro, promete proteger e termina consumindo quem o serve. E todo ídolo é um quase que se vende como inteiro.
O Salmo 146.3 diz para não confiarmos em príncipes, nem em filho de homem, em quem não há salvação. Jeremias 17.5 chama de maldito o homem que confia no homem. E o Salmo 20.7 mostra os dois caminhos: uns confiam em carros, outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor.
Yago Martins, em A Religião do Bolsonarismo, resume a questão numa frase que serve para todo lado do espectro: a pergunta é a quem você se devota, e em quem você vota vem depois. Vale lembrar que ele mesmo declarou voto em Bolsonaro nos dois turnos de 2018, então a crítica vem de dentro do campo. Ou seja, a idolatria política não escolhe lado ou classe social.
Do outro lado do tabuleiro, Michael Kruger, em Os 10 Mandamentos da Esquerda Cristã, mostra como a fé é reescrita quando uma agenda toma o lugar da doutrina. O décimo princípio que ele examina diz que a vida neste mundo importa mais do que a vida no mundo vindouro. Se você troca a eternidade pelo resultado de uma eleição, já mudou de religião, mesmo que continue indo à igreja.
Groen van Prinsterer, em Incredulidade e Revolução, apontou a raiz disso no século 19. Toda política que tira a soberania das mãos de Deus acaba colocando ali a vontade do homem, e a vontade do homem é um senhor cruel.
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Sinais de que seu voto virou culto
- Você repassou uma informação que não checou porque ela servia ao seu lado.
- Você perdoa no seu candidato exatamente o que condena no adversário.
- Você esfriou com um irmão da sua igreja por causa de política.
- Sua paz sobe e desce com a pesquisa eleitoral.
- Você fala mais do seu candidato do que de Cristo.
- Você defende mais as pautas do seu lado político dizendo que isso é evangelho?
Poderia ficar aqui levantando muitos questionamentos pertinentes. Mas os supracitados já são suficientes e Pedro resolve isso em poucas palavras: "Temei a Deus, honrai o rei" (1Pe 2.17). São dois verbos diferentes e certamente propositais. O temor é adoração e pertence somente a Deus e a honra é respeito e pertence ao magistrado. Quando você troca os verbos de lugar, tem idolatria. E quando Pedro escreveu isso o Rei era Nero.
O quase que Deus não aceita
Voltando à música, a Bíblia chama de quase aquilo que chama de coração dividido. Elias subiu o Carmelo e perguntou ao povo: "Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; se Baal, segui-o" (1Rs 18.21). O povo não respondeu uma palavra, porque queria os dois. O povo no Carmelo era exatamente isso. Não negava o Senhor e também não largava Baal. Ia ao altar de um e voltava ao outro. Se o profeta subisse hoje a algum monte brasileiro numa manhã de domingo, a pergunta seria a mesma: até quando você vai ser crente na igreja e pagão na urna?
Paulo pregou diante de Agripa, e o rei respondeu: "Por pouco me persuades a fazer-me cristão" (At 26.28). Ele chegou perto e voltou para o palácio. Cristo disse à igreja de Laodiceia que ela não era fria nem quente e que estava a ponto de ser vomitada da sua boca (Ap 3.15-16). E em Mateus 12.30 ele não deixa meio-termo: quem não é por ele é contra ele.
O quase que mais preocupa é o do crente que entrega a Cristo uma parte da sua confiança e guarda a outra para a urna. Votar em alguém imperfeito você vai fazer de qualquer jeito, porque todos são imperfeitos.
O Rei que nenhuma urna elegeu
A letra diz que o quase é incompleto, inacabado, que ainda não terminou. Existe um governante que passa inteiro no teste de Jetro. Ele não julga pela aparência dos olhos nem decide de ouvido, e julga com justiça os pobres da terra (Is 11.3-4). É o nosso Salvador, Jesus Cristo, Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19.16).
Na cruz ele disse "está consumado" (Jo 19.30), e nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Cl 2.9). Ele não precisa do seu voto, não disputa segundo turno e não perde o trono no domingo à noite. É o nosso Deus quem remove reis e estabelece reis (Dn 2.21).
A Confissão de 1689 declara, no capítulo 21, que somente Deus é Senhor da consciência. Nenhum político, nenhum partido e nenhum pastor com palanque tem direito sobre ela. Seu voto é seu, e sua consciência é de Cristo.
O que fazer na segunda-feira
Ore por quem ganhou, inclusive se seu candidado perdeu. Paulo manda orar por reis e por todos os que estão em autoridade (1Tm 2.1-2), e o homem no trono era Nero.
Pague seus impostos e obedeça em tudo o que for lícito, como ensina a própria Confissão (1689, cap. 24, par. 3). Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mt 22.21). Quando as duas coisas colidirem, lembre de Pedro diante do Sinédrio: "Antes importa obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29).
Também não se cale diante da injustiça. Agostinho perguntou, em A Cidade de Deus, o que são os reinos sem justiça senão grandes bandos de ladrões. Honrar a autoridade é diferente de adulá-la, e o silêncio diante do roubo nada tem de fruto do espírito.
Vote no domingo, com critérios bíblicos e com a consciência limpa sabendo que você irá se levantar e denunciar os erros quando, certamente seu candidato falhar. E na segunda-feira, acorde sabendo que o nosso Rei continua vivo à direita do Pai. Nenhuma urna o colocou ali e nenhuma urna vai tirá-lo.
Sobre Lucas Lauriano
Cristão, casado, engenheiro de software e seminarista no Seminário Martin Bucer. Formado em Sistemas de Informação, transito entre tecnologia e teologia, com muito rock’n roll como trilha sonora dessa dádiva chamada vida.




