Armínio e Calvino no banco dos réus: por que não sou arminiano.

Lucas Lauriano

Lucas Lauriano

· 18 min leitura
Fonte: acervo Protocolo95

Recentemente voltei a ler um livro que há anos eu empurrava com a barriga: Jacob Arminius: Theologian of Grace, de Keith D. Stanglin e Thomas H. McCall. É uma excelente obra, boa tanto para leigos quanto para acadêmicos, com uma bibliografia extensa. O motivo que me fez investir tempo nessa leitura é simples: eu nunca tinha lido nada sobre Armínio. Eu parecia um jovem revolucionário de esquerda numa rodinha de maconheiros da UNE, alimentado só pela própria bolha de cabelos coloridos e roupas estranhas. Sim, ofensas gratuitas.

E isso me levou a questionar o que eu estava lendo. Preciso, no mínimo, ler As Obras de Armínio para ver como ele mesmo responde às minhas perguntas. Só que provavelmente não terei tempo para isso agora, mas a leitura do livro serviu ao seu propósito. Então pensei: por que não fazer um exercício de imaginação? Um tribunal com dois réus, Armínio de um lado e Calvino do outro. O juiz é a Escritura, e as perguntas valem para os dois, e começo por Armínio.

Image

O depoimento de Armínio

Jacobus Armínio (1560-1609) foi pastor reformado em Amsterdã e professor em Leiden. Ele ensinava que o homem caído é incapaz de pensar, querer ou fazer o bem espiritual sem a graça. Keith Stanglin e Thomas McCall, em Jacob Arminius: Theologian of Grace, defendem que é hora de retirar a acusação de pelagianismo contra ele. Concordo com eles, e este artigo não o acusa disso. Por outro lado… do molinismo ele não precisa ser acusado, porque o próprio Armínio o defendeu em Leiden.

Armínio divergia dos reformados em três pontos. A eleição é condicional, baseada na fé prevista. A graça é resistível e a criação é um ato de amor que deseja salvar a todos.

Ele organizou isso em quatro decretos:

  1. Cristo é nomeado Mediador.
  2. Deus decreta salvar quem se arrepender e crer.
  3. Deus provê os meios da graça.
  4. Deus elege pessoas específicas com base no que sabia que cada uma faria.

O quarto decreto depende de uma ferramenta, eu diria, de uma muleta. Vamos ver de onde ela veio.

Primeiro interrogatório: a origem da ferramenta muleta

Luis de Molina (1535-1600) era jesuíta espanhol. Em 1588 publicou a Concordia. Nela, Deus conhece o que é possível, conhece o que ele mesmo decretou e conhece uma terceira coisa, no meio. Antes de qualquer decreto, ele sabe o que cada criatura livre faria em cada circunstância possível. É a ciência média.

Segundo Stanglin e McCall, Armínio tinha a segunda edição da Concordia em sua biblioteca e defendeu a ciência média nas disputações de Leiden. Franciscus Gomarus, influente teólogo calvinista holandês o acusou de levar o papismo para dentro de uma universidade reformada.

Preciso ser justo aqui, a origem não prova necessariamente um erro. Um conceito pode vir de Roma e ser verdadeiro. Os reformados também beberam em Aristóteles e nas distinções escolásticas. Calvino leu Sêneca e Agostinho, passou pelo ambiente de Paris e herdou séculos de lógica medieval. Beza, Vermígli e Zanchi também não leram a Bíblia no escuro, todos tinham suas lentes (hermenêutica) para ler o texto bíblico. E quem estuda cristologia precisa ler Jesus de Nazaré, uma obra clássica de Joseph Ratzinger, considerado por muitos o papa protestante.

Então a pergunta é qual ideia passou a mandar na leitura do texto. No caso de Armínio, foi a ciência média. Quando o Sínodo de Dort (1618-1619) respondeu aos remonstrantes, voltou a Agostinho e ao seu combate contra Pelágio. Ou seja, essa resposta já existia antes, sendo fácil para os Contra-Remonstrantes de Dort a usarem.

Então, como o pensamento da graça preveniente foi influenciado e se relaciona com a ciência média? É possível elencarmos vários fatores, mas pelo três são importantes:

1. O próprio Jacó Armínio leu e debateu Molina

Durante o período em que foi professor na Universidade de Leiden (1603–1609), Armínio conhecia os debates católicos da Controvérsia De Auxiliis (disputa entre jesuítas molinistas e dominicanos tomistas sobre a graça e a liberdade). Armínio chegou a citar o conceito de ciências em Deus em suas obras. Embora ele tenha preferido fundamentar sua teologia na presciência simples (Deus apenas prevê quem vai crer) em vez de adotar o sistema completo de Molina, a discussão teológica da época sobre a "graça suficiente" e a liberdade humana estava profundamente oxigenada pelo molinismo.

2. A Graça Preveniente cria as condições para a Ciência Média funcionar

Molina era um católico e, portanto, acreditava no pecado original, mas mantinha uma visão antropológica mais otimista que os protestantes. Armínio, por ser um reformado, defendia a depravação total: o homem após a Queda perdeu completamente a capacidade de escolher a Deus.

É aqui que entra a graça preveniente: ela é a ação do Espírito Santo que liberta temporariamente a vontade humana, capacitando o indivíduo a aceitar ou resistir ao Evangelho.

Na lógica teológica:

  • Sem a graça preveniente, a vontade do homem está morta; logo, ele só pode escolher o pecado.
  • Com a graça preveniente, o homem ganha livre-arbítrio libertário para responder a Deus.
  • Uma vez que o homem tem essa liberdade real (graças à graça preveniente), torna-se logicamente possível a existência da ciência média. Deus, por meio de Sua ciência média, contempla o que o homem faria sob o efeito dessa graça preveniente em qualquer circunstância possível.

3. A síntese no "Molinismo Arminiano" contemporâneo

Embora Armínio e os primeiros teólogos arminianos clássicos (como Richard Watson) tenham evitado fundir os dois conceitos para não parecerem católicos/jesuítas e dar fundamento às críticas de Gomarus, a teologia filosófica moderna uniu-os intimamente.

Filósofos e teólogos contemporâneos utilizam a ciência média para explicar perfeitamente o funcionamento da graça preveniente. Eles argumentam que Deus, sabendo via ciência média exatamente como cada ser humano responderia aos estímulos e convites da graça preveniente em diferentes situações da vida, ordenou o mundo de forma a estender a graça suficiente a todos, prevendo de antemão quem cooperaria livremente com ela.

Em resumo: a ciência média não gerou o conceito de graça preveniente (que encontra suas raízes mais antigas em Agostinho e nos pais da Igreja, alguns eram claramente sinergistas), mas ela forneceu a mecânica filosófica ideal para explicar como Deus administra e prevê os resultados dessa graça agindo sobre criaturas livres.

Então, sim, Armínio sofreu forte influência desse pensamento. Sendo um grande teólogo do seu tempo, acadêmico e pastoral. Mas, principalmente acadêmico. Ele constantemente estava envolvido em intensas controvérsias intelectuais, religiosas e políticas.

Segundo interrogatório: o que diz a Escritura

Esaú e Jacó (Romanos 9:10-13). Paulo diz que os gêmeos ainda não tinham nascido nem feito bem ou mal algum, para que o propósito de Deus conforme a eleição permanecesse, não por obras, mas por aquele que chama. A ciência média pede que Deus olhe o que Jacó e Esaú fariam em cada circunstância e escolha a partir disso. Paulo exclui as obras do fundamento da escolha, e o versículo 16 conclui: não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus que tem misericórdia.

Romanos 8:29. Armínio lia "os que de antemão conheceu" como "os que previu que creriam". O objeto da presciência no texto é a pessoa. Deus conheceu a eles. É o conhecer de Amós 3:2 e de Jeremias 1:5, que ama e escolhe. A ordem segue sem quebra: conheceu, predestinou, chamou, justificou, glorificou.

Romanos 1:18-32 e 3:10-12. A humanidade inteira suprime a verdade e ninguém busca a Deus. A ciência média pergunta o que o homem faria em outras circunstâncias. No entanto, Paulo já respondeu: em todas, ele suprime a verdade.

Efésios 1:4-5. Deus nos escolheu nele antes da fundação do mundo. Armínio queria Cristo como fundamento da eleição, e nisso estamos de acordo. O texto diz que fomos escolhidos nele para sermos santos. Fomos escolhidos em Cristo, e o texto não menciona fé prevista. E é aqui que a gente para.

João 6:44 e Atos 13:48. Ninguém vem ao Filho se o Pai não o trouxer. Em Antioquia creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna. A fé vem depois da destinação.

A defesa encontra um texto importante em Mateus 11:21-23. Jesus afirma que Tiro e Sidom teriam se arrependido se tivessem presenciado os milagres realizados em Corazim e Betsaida. Trata-se de uma afirmação contrafactual, pois Jesus descreve o que teria acontecido em uma situação que não ocorreu: aquelas cidades não receberam as mesmas manifestações do poder de Deus que foram concedidas às cidades da Galileia. Ainda assim, Jesus declara que, caso tivessem presenciado esses sinais, seus habitantes teriam se arrependido, a ponto de se vestirem de pano de saco e se cobrirem de cinzas, práticas que expressavam humilhação e arrependimento.

Essa afirmação merece atenção porque Jesus não trata o arrependimento dessas cidades como uma possibilidade inteiramente desconhecida. Ele declara o que teria acontecido caso as circunstâncias fossem diferentes. Tiro e Sidom eram cidades gentílicas, conhecidas por sua história de oposição a Israel, enquanto Corazim e Betsaida tiveram o privilégio de testemunhar diretamente as obras de Jesus. Mesmo diante de tantos sinais, porém, seus habitantes permaneceram impenitentes. Jesus, então, compara a resposta que essas cidades tiveram com a resposta que Tiro e Sidom teriam apresentado diante das mesmas manifestações.

Image

O argumento toca diretamente na questão da providência divina. Os habitantes de Corazim receberam uma manifestação do poder de Cristo que não foi concedida aos habitantes de Tiro e Sidom. Jesus afirma que essa diferença nas circunstâncias teria produzido respostas distintas. O texto, portanto, nos leva a considerar que Deus governa a história e determina as circunstâncias nas quais as pessoas são confrontadas com a revelação divina. A própria comparação feita por Jesus atribui significado decisivo àquilo que cada cidade recebeu e à maneira como teria respondido diante de uma manifestação diferente do poder de Deus.

Terceiro interrogatório: a fé como dom e a fé prevista

Agora a pergunta mais difícil. Armínio diz duas coisas.

  1. A fé é dom de Deus, capacitada pela graça preveniente.
  2. Deus elege com base na fé prevista.

Pergunto ao réu: quando Deus prevê a fé de Pedro e a incredulidade de Judas, o que ele vê?

Se vê a fé que ele mesmo vai dar, a eleição depende do decreto de dar a fé a uns e a outros não. Isso é eleição incondicional. Se vê a fé que a pessoa vai produzir ao cooperar com uma graça dada a todos, a diferença entre o salvo e o perdido está na criatura. Paulo pergunta: quem te faz diferente de outro? E que tens tu que não tenhas recebido? (1 Coríntios 4:7).

Armínio tenta ficar no meio, (sempre tem os “insentões” que ficam em cima do muro). A graça preveniente é universal, alguns cooperam e outros resistem. Então a graça é a mesma para os dois, e o que separa o crente do incrédulo é a resposta. Na prática, a fé passa a ser contribuição humana, ainda que ele a chame de dom.

A defesa responde. O Dom recebido não é mérito. Ou seja, o mendigo que estende a mão para receber a esmola não pagou nada. A fé é o ato de receber. A graça capacita sem determinar: sem ela ninguém poderia crer, e o uso do poder é do homem. Armínio conhecia a dificuldade e respondia que a graça é suficiente para todos e que Deus não deve mais a ninguém.

A acusação replica. A primeira resposta fala de mérito, e a pergunta era por que um recebe e outro não. Se a graça é igual para os dois, a diferença está no homem, e Paulo nega ao homem qualquer motivo de glória. A segunda resposta vai custar caro: se a graça só capacita e a pessoa decide, a conversão final nasce da vontade humana. Filipenses 1:29 diz que nos foi concedido, não somente crer em Cristo. O próprio crer é concedido.

O sistema de Armínio desloca a circularidade, como uma dança que volta para onde estava.

Image

Calvino no banco dos réus

Seria injusto sentar só um réu. Calvino também responde.

Acusação 1: Deus seria o autor do pecado. É a objeção que mais incomodava Armínio. Calvino responde que Deus ordena todas as coisas e que o pecado nasce da vontade da criatura, que age segundo o seu próprio desejo. Deus usa causas secundárias sem se tornar culpado delas. Calvino reconhece que o decreto é terrível de contemplar. Confesso que a resposta deixa um mistério. Diante da objeção de Romanos 9:19, Paulo responde com uma pergunta: quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?

Acusação 2: a oferta do evangelho seria insincera. Se Deus não elegeu a todos, como pode chamar a todos? Calvino responde que o chamado é genuíno e que a incredulidade é culpa de quem rejeita. O homem não crê porque não quer, e por isso é culpado. A Escritura afirma as duas coisas: todo aquele que nele crê (João 3:16) e ninguém pode vir a mim se o Pai não o trouxer (João 6:44). Não cabe a mim harmonizar o que o texto deixou sem harmonizar. Robert Letham descreve a Trindade como uma aresta estreita com precipícios em ambos os lados: modalismo de um lado, triteísmo do outro. Os concílios não resolveram esse mistério. Mas estabeleceu a trilha que as Escrituras abrem e a recusar os dois abismos.

A salvação tem uma trilha parecida. De um lado fica o fatalismo, que faz de Deus autor do pecado e tira do homem a responsabilidade. Do outro fica o sinergismo, que entrega a decisão final à vontade humana e dá ao homem motivo de glória. As Escrituras afirmam que Deus escolhe antes da fundação do mundo e que o homem é chamado a crer e responde por sua incredulidade. Os dois lados da trilha estão no texto, e quem anda nela se estabelece onde o texto se estabelece. O que é mistério e Deus não intentou nos fazer conhecer, deixamos no mistério. Somos responsáveis por nossa incredulidade e a salvação é mérito exclusivo de Deus.

Acusação 3: a ordem dos decretos o prenderia a um esquema rígido. A defesa encontra em Calvino uma resposta importante a essa crítica. Ao tratar da eleição, Calvino aponta para Cristo como aquele em quem o crente encontra segurança para a sua salvação. A doutrina não deve alimentar especulações abstratas sobre os decretos divinos, mas consolar aqueles que confiam em Cristo. Quem está nele pode descansar na certeza de que sua salvação está nas mãos de Deus. A perseverança não depende da firmeza com que o crente consegue se segurar, mas da fidelidade daquele que o sustenta.

O problema começa quando abandonamos esse propósito e tentamos transformar os mistérios de Deus em um sistema que nossa razão consiga explicar por completo. Queremos organizar cada detalhe, estabelecer relações lógicas para tudo e encontrar respostas definitivas mesmo onde a Escritura não nos oferece elementos suficientes. É assim que podemos acabar presos a discussões especulativas: Cristo tinha DNA de Maria? Quando subiu aos céus, permaneceu em algum lugar do nosso universo? Passou pela atmosfera e foi para uma galáxia muito, muito distante? Ou, para citar uma das minhas favoritas, a transfiguração de Cristo e a aparição de Moisés no monte Sinai aconteceram no mesmo momento do tempo e do espaço?

Essas perguntas podem até despertar curiosidade teológica, mas precisamos perguntar se temos fundamento bíblico para respondê-las e se as respostas realmente contribuem para a compreensão daquilo que Deus revelou. A teologia exige rigor e reflexão, mas também exige humildade diante dos limites da nossa compreensão. A ordem dos decretos pode ser estudada e debatida, mas não deve se tornar uma estrutura especulativa que obscureça o próprio Cristo. Afinal, é nele que a eleição se torna motivo de consolo para o crente, que encontra na fidelidade de Deus a segurança que jamais conseguiria produzir por suas próprias forças.

O veredito

Armínio acertou em querer proteger a bondade de Deus. Acertou em colocar Cristo no centro da eleição. Acertou ao dizer que o homem não tem força própria. Para unir tudo isso, usou a ciência média, e ela não resiste a Romanos 9, a Romanos 8 e a Efésios 1. A pergunta sobre a fé como dom e a fé prevista continua aberta dentro do sistema dele.

Calvino sai desse exercício de julgamento com perguntas abertas também, e eu não finjo o contrário. Ele deixa o mistério onde a Escritura o deixou. Armínio quis resolvê-lo com uma ferramenta que Paulo não conhece.

Sou calvinista porque o texto me leva a esse lado da trilha. Escolhido em Cristo antes da fundação do mundo, pelo propósito daquele que chama. Isso tira de mim todo motivo de glória e põe tudo nas mãos de Cristo. Como disse Jonas do ventre do peixe: a salvação pertence ao Senhor (Jonas 2:9).

Referências Bibliográficas

Soberania divina e responsabilidade humana

Soberania divina e responsabilidade humana

D. A. Carson , Vida Nova, 2019

A tensão existente entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana é tema debatido com frequência nas áreas da filosofia e da teologia.

Cinco pontos: Em direção a uma experiência mais profunda da graça de Deus

Cinco pontos: Em direção a uma experiência mais profunda da graça de Deus

John Piper, Editora Fiel, 2021

A graça salvadora de Deus, ao abordar os mistérios da obra redentora de Cristo, que comprou, ao preço de seu próprio sangue, o dom da fé para os Filhos de Deus.

O cristão pode perder a salvação? Respostas calvinista e arminiana

O cristão pode perder a salvação? Respostas calvinista e arminiana

Carlos Vailatti e Yago Martins, Thomas Nelson, 2025

Um dos principais questionamentos é se, depois de salvo, um cristão pode “cair da graça”, ou seja, perder a salvação e ser condenado eternamente.

O Calvinismo Explicado: Teontologia, Providência e Decretos

O Calvinismo Explicado: Teontologia, Providência e Decretos

Francisco Tourinho, 2025

Entenda como conciliar a responsabilidade humana e o determinismo divino à luz da tradição Calvinista.

* Os links acima são links de afiliado. Ao comprar através deles, você ajuda a manter este site sem custo adicional.

Lucas Lauriano

Sobre Lucas Lauriano

Cristão, casado, engenheiro de software e seminarista no Seminário Martin Bucer. Formado em Sistemas de Informação, transito entre tecnologia e teologia, com muito rock’n roll como trilha sonora dessa dádiva chamada vida.

Leia também