A Exposição Amplificada
Os que anteriormente pregavam semanalmente apenas à sua congregação — os pregadores itinerantes que pregavam uma vez na vida para uma audiência — agora têm uma exposição amplificada graças à internet e às mídias sociais. Todo, ou quase todo, pregador, pastor, escritor ou líder em nosso tempo possui um canal de comunicação onde posta seus “cortes”, textos, reflexões e links de vídeos com suas pregações. Um dos perigos constantes do ministério de pregação e pastoreio é a tentação de agradar o ouvinte e, a meu ver, as dinâmicas de nosso tempo favorecem a queda nesse pecado.
Parâmetros de Validação
Muitos temem o ódio, o cancelamento, o ostracismo; outros ainda possuem vontade de vencer, de crescer, ganhar mais seguidores, ser convidados para conferências e eventos, ser reconhecidos. E a busca das redes, querendo ou não, é por aprovação; afinal, medimos tudo por “likes”. O que antes era visto como parâmetro para um ministério fiel — vida idônea, testemunho familiar, longevidade numa comunidade — deu lugar a uma validação pós-moderna, onde o que define a sua qualidade é o seu alcance.
O Espetáculo do Engajamento
Sim, nossa geração tende a ouvir com maior atenção alguém com milhares de seguidores do que homens simples, fiéis e devotos ao santo ministério. Isso é evidenciado pela enxurrada de “caixinhas de perguntas” enviadas às grandes personalidades gospel. O que antes era trabalho do pastor local, que tinha conhecimento de causa, convivência e experiência, se tornou um espetáculo (quase) anônimo no Instagram. Pessoas confessam pecados, buscam soluções e quase sempre encontram uma resposta “agradável”; e mesmo que a resposta seja “ríspida”, vira “meme” — é divertido, vamos rir disso e engajar!
O Desafio da Aceitação
A sede por ser aceito, o desejo de ser agradável e de ser socialmente validado, eu diria que é o maior desafio da nossa geração de ministros. As perguntas que eu faço são: O evangelho está sendo pregado em sua completude? As verdades bíblicas estão sendo expostas? Pessoas estão sendo confrontadas e se arrependendo?
A Tentação da Suavização
Infelizmente, sabemos que a resposta na grande maioria dos casos é “não”. Sucumbimos a essa terrível tentação quando atenuamos, amenizamos ou suavizamos a mensagem. Quando, por medo de perdermos relevância e em prol de “pontes construídas”, adulteramos a mensagem. Esse tema me lembra de um texto onde Paulo expõe a maneira como ele lidava com o ministério, e é com ele que trago esta reflexão:
2 Coríntios 4:1–2 (NAA) “Por isso, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi dada, não desanimamos. Pelo contrário, rejeitamos as coisas ocultas que trazem vergonha, não agindo com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus. E assim, pela manifestação da verdade, nos recomendamos à consciência de todos na presença de Deus.”
O Brilho da Nova Aliança
No fim do capítulo 3, Paulo explica que, assim como a Nova Aliança em Cristo é superior à Antiga, a tarefa de anunciar essa aliança — o Santo Evangelho — é infinitamente superior. A figura que ele relembra é o brilho da face de Moisés ao descer do monte com as tábuas; ele precisou usar um véu para proteger o povo da luz. Mas agora esse véu é removido pelo Espírito, e podemos ver e anunciar a glória do Senhor de uma maneira superior. Mas, se há o privilégio de anunciar algo tão precioso, há também um alerta, um perigo. Matthew Henry, acerca dessa passagem, comenta:
Servos das Almas, não dos Humores
“Os ministros são servos das almas dos homens; devem evitar tornar-se servos dos humores ou das paixões dos homens. É agradável contemplar o sol no firmamento; mas é mais agradável e proveitoso que o evangelho brilhe no coração. Assim como a luz foi o princípio da primeira criação, assim também, na nova criação, a luz do Espírito é a sua primeira obra sobre a alma. O tesouro da luz e da graça do evangelho é colocado em vasos de barro. Os ministros do evangelho estão sujeitos às mesmas paixões e fraquezas que os outros homens. Deus poderia ter enviado anjos para dar a conhecer a gloriosa doutrina do evangelho, ou poderia ter enviado os filhos mais admirados dos homens para ensinar as nações, mas ele escolheu vasos mais humildes e fracos, para que o seu poder fosse mais glorificado em sustentá-los e na abençoada mudança operada pelo seu ministério.” Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, 1997), 2Co 4.1.
Fidelidade versus Rejeição
A primeira constatação de Paulo é que, pela grandeza dessa mensagem e pela misericórdia que nos foi concedida de anunciá-la, não devemos desanimar. Muitas vezes, dizer a verdade e expor fielmente a Palavra vai gerar o oposto do que mencionei sobre a busca por aprovação em nossos dias. Mas esse sempre foi o padrão: os profetas foram rejeitados e perseguidos; Jesus foi rejeitado e perseguido; os apóstolos foram rejeitados e perseguidos. Todos morreram sem a “fama” deste mundo, recebendo desaprovação, expulsão de círculos sociais e até mesmo a morte.
O Fardo do Mistério
Esse é o fardo do ministério de anunciar as verdades de Deus: o homem, com seu coração endurecido e com um véu em seus olhos, não pode ver a glória da mensagem do Evangelho. Isso é esperado. No entanto, muitas vezes temos sucumbido à tentação da aprovação ministerial.
A Segunda Assertiva Paulina
“Pelo contrário, rejeitamos as coisas ocultas que trazem vergonha, não agindo com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus.” 2Co 4.2
Devemos rejeitar as “coisas ocultas”, os “atos vergonhosos”. Que atos seriam esses? A proximidade com a “astúcia”, que segundo o léxico Louw-Nida significa: “πανουργία: astúcia que envolve esperteza maligna — ‘astúcia, traição’. ‘Assim como a serpente enganou Eva com sua traição’ (2 Coríntios 11:3)”.
A Natureza da Traição
Esse uso posterior é esclarecedor: a astúcia, o engano, as coisas ocultas e os atos vergonhosos — bem como a tentativa da serpente de distorcer a palavra de Deus no Éden — estão todos relacionados. Há um perigo nas palavras distorcidas; há um aspecto diabólico na manipulação de palavras e no discurso com meias verdades em prol de um objetivo pessoal.
A Metáfora da Gasolina Adulterada
A segunda palavra usada, “adulterando”, segundo o mesmo léxico, significa: “δολόω: fazer com que algo seja ou se torne falso como resultado de engano ou distorção — ‘fazer ser falso, distorcer’. ‘E não distorcendo a palavra de Deus’ (2 Coríntios 4:2)”.
Podemos pensar no exemplo da gasolina adulterada: ao adicionar álcool para fazê-la render mais, a gasolina é diluída a um ponto que deixa de ser o que era em primeira instância. Como sabemos, isso pode gerar danos irreparáveis a um veículo. Da mesma maneira, a verdade do Evangelho, ao ser diluída ou torcida, se torna outra coisa. Perde-se a eficácia, perde-se a essência, perde-se o próprio Evangelho.
Mercadejando a Palavra
Paulo, na mesma carta e tratando do mesmo tema, fala sobre “outros” que mercadejavam a palavra de Deus:
“Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus. Pelo contrário, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus.” (2Co 2:17)
Esse, para mim, é o maior perigo e a maior tentação, o que vem trazendo maior dano para a igreja de nossos dias: pregadores, pastores e líderes que, por mercadejar, por tentar tornar a mensagem mais atraente, mais acessível ou menos ofensiva, perderam a mensagem verdadeira.
O Evangelho "Coach"
Os danos disso para o Corpo de Cristo são notáveis: uma geração que não conhece o Evangelho completo, que vive de “evangelho coach” e que cai em ciladas de charlatões que procuram apenas o lucro. E tudo isso é responsabilidade dos que anunciam.
Responsabilidade e Esperança
Que Deus nos ajude a, como Paulo, rejeitar esse tipo comercial e midiático de performance do ministério. A responsabilidade é de cada um de nós. Encerro com as palavras de Matthew Henry novamente:
“Os melhores dos homens desfaleceriam, se não recebessem a misericórdia de Deus. E podemos confiar que essa misericórdia que nos ajudou a sair e nos ajudou a seguir em frente até agora, nos ajudará até o fim. Os apóstolos não tinham desígnios vis e perversos, cobertos de pretextos justos e especiosos. Eles não tentaram fazer com que seu ministério servisse a um propósito. A sinceridade ou retidão manterá a opinião favorável de homens sábios e bons. Cristo, por meio de seu evangelho, faz uma descoberta gloriosa para a mente dos homens. Mas o objetivo do diabo é manter os homens na ignorância; e quando ele não consegue manter a luz do evangelho de Cristo fora do mundo, ele não poupa esforços para afastar os homens do evangelho ou para colocá-los contra ele. A rejeição do evangelho é aqui atribuída à cegueira e maldade intencionais do coração humano. O eu não era o assunto ou o fim da pregação dos apóstolos; eles pregaram Cristo como Jesus, o Salvador e Libertador, que salva totalmente todos os que vêm a Deus por meio dele.” Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, 1997), 2Co 4.1.
Sobre Pedro Henrique Freitas Silva
Marido da Calita e pai do Isaac e do Rafael, é cristão em constante reforma. Bacharel em Teologia e futuro mestrando no The Master’s Seminary em Los Angeles (2026). Atua como professor de musicalização e violão/guitarra, transitando entre a solidez das Escrituras e o universo da cultura geek, movido a animes e muito rock n' roll.

