Auê e a fé que perde

Lucas Lauriano

Lucas Lauriano·

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A canção “Auê (A Fé Ganhou)”, de Marco Telles e Coletivo Candieiro, rapidamente ultrapassou o campo musical e se tornou um ponto de tensão dentro do evangelicalismo brasileiro na última semana. Mesmo tendo sido lançada há quase um ano. O debate não surgiu por causa de uma suposta heresia explícita, nem por uma negação clara de doutrinas centrais da fé cristã, mas por algo muito mais revelador: a presença da brasilidade, da linguagem popular e da poesia simbólica dentro de uma música cristã. Coisas que há muito já haviam sido muito bem exploradas por grandes nomes no passado não tão recente, como Rebanhão, João Alexandre, Jorge Camargo e até nosso conterrâneo Gladir Cabral.

Após o furor dos “santos” e virar “polêmica gospel”, senti a necessidade de dar meus dois “centavos” de contribuição analisando sua letra, sua construção musical e, sobretudo, a reação que ela provocou. E com intuito de mostrar que a polêmica diz menos sobre a música e mais sobre o estado espiritual, cultural, social e teológico do evangelicalismo contemporâneo.

Uma fé que começa do lugar real

“Auê” não começa com vitória, poder ou conquista espiritual. A letra se inicia com uma confissão honesta da condição humana. O eu lírico não se apresenta limpo, resolvido ou espiritualmente performático, mas inteiro, com falhas, limites, birras e contradições. Quem vive a tensão descrita por Paulo em Romanos 7 reconhece rapidamente esse lugar: o corpo desta morte, onde a fé não é pose, mas clamor.

Isso é profundamente bíblico. A fé cristã nunca começa no acerto humano, mas no reconhecimento da necessidade. Poderíamos pontuar uma diversidade de textos bíblicos sobre o fracasso humano e a misericórdia de Deus. Os Salmos, os profetas e os próprios evangelhos partem desse lugar: o homem real diante de um Deus gracioso. Nesse sentido, a música dialoga muito mais com a espiritualidade bíblica do que com o discurso evangélico triunfalista e artificial cantando em boa parte dos guetos evangélicos atualmente.

“A fé ganhou”: vitória da graça, não do moralismo

Quando a canção afirma que:

“Auê, solta tua criança até, Explodir em glória”,

não se trata de um slogan de vitória espiritual barata. Não é a celebração de um cristão bem-sucedido, nem de uma vida religiosa organizada. É a afirmação de que a fé vence quando a graça superabundou o pecado, quando a inclusão derrota a exclusão, quando a confiança substitui o controle religioso.

Biblicamente, a fé vence porque Deus age. Não porque o homem finalmente se tornou digno. É a vitória da graça sobre o moralismo e auto salvação, algo central no evangelho e frequentemente esquecido nas práticas evangélicas.

Corpo, festa e comunidade: uma fé encarnada

Um dos grandes incômodos da música está em sua linguagem corporal: dança, roda, ciranda, festa, samba e saia balançando. Para muitos evangélicos, essas categorias ainda soam suspeitas, e muito atrelada a religiões de matriz africana como candomblé, umbanda e quimbanda e outras.

Mas a Escritura não compartilha desse medo. O louvor bíblico é corporal, comunitário e festivo. Há dança, palmas, procissão e celebração. Davi dançou diante do Senhor. Os Salmos convidam o corpo inteiro para o louvor.

Musicalmente, “Auê” comunica isso com clareza. A canção não foi feita para o palco das igrejas, mas para a roda. A versão de estúdio trás claramente elementos indigenas e tribais. Impossível não lembrar de First Call e O Sifuni Mungu (All Creatures of Our God And King).

Sigamos...

Não exalta o indivíduo, mas o coletivo. Sua estética reforça uma teologia implícita: o Reino de Deus é mesa, encontro e alegria compartilhada. Essa dimensão escatológica é amplamente testemunhada nas Escrituras. Isaías 25.6 anuncia o banquete preparado pelo Senhor; Mateus 22 e Lucas 14 apresentam o Reino como uma grande festa para a qual muitos são convidados; e Apocalipse 19.9 aponta para a consumação nas bodas do Cordeiro. Nesse horizonte, o álbum e especialmente a canção, estão conscientemente fundamentados em Lucas 14.

“Zé e Maria”: símbolo popular, não sincretismo

O ponto mais sensível da polêmica gira em torno da menção a “Zé e Maria”. Para alguns, isso seria uma referência indireta a entidades de religiões de matriz africana. Essa leitura, no entanto, ignora completamente a linguagem popular brasileira e a própria lógica do texto.

“Zé” e “Maria” são arquétipos culturais do povo simples. Representam o homem comum, a mulher comum, o cotidiano. Além disso, José e Maria são personagens centrais da narrativa bíblica da encarnação: gente simples, pobre, improvável, por meio de quem Deus entra na história.

Não há na letra invocação espiritual, culto alternativo, mediação religiosa paralela ou qualquer elemento que configure sincretismo. O que existe é poesia simbólica popular, algo amplamente presente na própria Bíblia e que veremos mais à frente neste texto.

Um povo acostumado com letras simplórias importadas

Parte da reação negativa revela algo mais profundo: um evangelicalismo habituado a letras simplórias, muitas vezes importadas do worship americano e europeu, traduzidas de modo empobrecido, repetidas à exaustão e consumidas sem reflexão crítica. Lembro de ouvir um influenciador dizer que passamos a infância e a juventude sendo treinados pelas fitas VHS de José Irion a identificar “mensagens subliminares” em músicas da Xuxa, filmes da Disney e até em rótulos da Coca-Cola. Quem aqui com 30+ não vai lembrar do “Alô diabo”? Pode-se até discutir alguns excessos da indústria cultural, especialmente no cinema. Mas o efeito colateral foi grave: formou-se uma geração desconfiada do desconhecido, temerosa da arte em si, ou daquilo que ela aparenta ser, incapaz de discernir entre forma, conteúdo e intenção. E ainda nem entramos na questão social de estudantes vítimas do sistema Paulo Freire de “educação”.

Sigamos.

Simplicidade pode ser virtude, claro. O problema é quando ela deixa de ser escolha e vira incapacidade. Quando qualquer metáfora já soa como heresia, qualquer ambiguidade vira ameaça e qualquer contato com cultura é visto com desconfiança. Aí não é simplicidade, é só empobrecimento espiritual mesmo ou ignorância.

Tenho a sensação de que a gente vive um tempo curioso: estudar virou coisa suspeita. Pensar demais incomoda. Aprofundar soa pedante. Não importa se é teologia, música ou engenharia; basta tentar ir além do raso que logo aparece o rótulo. “Lá vem o palestrinha.” Como se o problema fosse falar demais, quando na verdade o incômodo é ouvir algo que exige atenção.

Paulo no Areópago: inculturação não é concessão

Esse medo da cultura não encontra muito respaldo bíblico. Em Atos 17, Paulo sobe ao Areópago e faz algo que certamente soaria escandaloso para religiosos mais rígidos: ele entra em diálogo com a cultura grega. Cita poetas pagãos, observa os símbolos da cidade e usa categorias locais para anunciar o Deus verdadeiro.

Paulo não chama tudo de idolatria de imediato. Ele observa, interpreta e redime a linguagem cultural. Isso não foi sincretismo. Foi uma sabedoria missionária. O mesmo apóstolo que combateu a idolatria com severidade, afirmou:

“Fiz-me tudo para com todos, para por todos os meios salvar alguns.”

Esse mesmo Paulo que, escrevendo aos efésios, olha para a própria cidade onde vive e encontra ali a matéria-prima da sua teologia. Éfeso era uma metrópole romana. Arcos, relevos, estátuas e símbolos militares faziam parte da paisagem urbana. Capacetes, escudos, cintos e sandálias. Tudo isso estava diante dos olhos de quem entrava pela rua principal da cidade.

Quando Paulo fala da armadura do cristão, ele não está criando imagens etéreas e abstratas. Está pegando o que é visível, cotidiano, quase banal, e usando como gancho para falar de realidades espirituais. A arqueologia confirma aquilo que o texto já sugere: Éfeso respirava esse imaginário romano. Paulo apenas o redime.

De novo, não há sincretismo aqui. Há encarnação. O evangelho não cai do céu embalado a vácuo. Ele entra na cidade, atravessa os arcos, observa os símbolos e então fala.

O esquecimento da própria história: Rebanhão e o “Baião”

A rejeição à brasilidade não é nova. E já foi desmentida pela própria história da música cristã no Brasil.

Nos anos 70 e 80, o Rebanhão foi duramente criticado por usar ritmos brasileiros, linguagem popular e estética não religiosa. A música “Baião” foi acusada de mundanismo e pasmem, é exatamente como hoje acontece com “Auê”. Só que não havia internet nem smartphones para propagar isso.

Décadas depois, o Rebanhão é reconhecido como um dos movimentos mais importantes e teologicamente honestos da música cristã nacional. O padrão se repete: o que hoje escandaliza, amanhã pode virar legado. É o teste do tempo. E este é implacável.

Coam o mosquito e engolem o camelo

Aqui está o ponto mais grave da crítica. O mesmo evangelicalismo que se escandaliza com “Zé e Maria” assiste, sem qualquer pudor, à novela das oito que começa às nove, saturada de adultério, cinismo moral e banalização do pecado. É o mesmo que consome e canta funk explícito e sertanejo universitário, celebrando traição, objetificação e um vazio existencial travestido de diversão.

Absorve entretenimento secular sem qualquer filtro bíblico ou teológico sério. Engole tudo com naturalidade. Mas se ofende quando uma música cristã soa brasileira.

Isso não é zelo. É seletividade moral. É preconceito travestido de piedade. É, em grande medida, uma herança mal digerida do catolicismo popular, aquela ideia de que objetos, ritmos e estéticas são, em si mesmos, sagrados ou profanos.

E isso é exatamente o tipo de religiosidade que Jesus confrontou com mais dureza. Não a do pecador consciente, mas a do religioso que coava o mosquito e engolia o camelo, que limpava o exterior do copo enquanto o interior permanecia podre, como sepulcros caiados.

O verdadeiro incômodo

Talvez o maior auê causado por “Auê”, não esteja em seus símbolos, mas em sua liberdade. Ela não pede permissão ao padrão evangélico importado. Não tenta soar global, neutra ou higienizada. Ela soa como povo do nortista e nordestino soa. E isso assusta.

Assusta porque falta profundidade. Falta compreensão bíblica. Dá medo porque falta luz, aquela que vem da interpretação correta das Escrituras. A palavra é simples, embora muita gente torça o nariz para ela: hermenêutica.

Assusta também porque falta compreensão da própria cultura. E o que não se compreende, ameaça. O problema é que esse não entender raramente é inocente. Na maioria das vezes é fruto de preguiça mental e de uma ausência gritante do básico da interpretação de texto.

Somos um povo que, há mais de trinta anos, foi desencorajado a pensar. Que passou pela escola sem aprender a ler de verdade. Que não leu os clássicos da literatura brasileira, seja por malandragem, seja por desdém. Agora, adultos, muitos propagam essa mesma ignorância no modo como lidam com as Escrituras.

Tenho a impressão de que seremos cobrados não pela falta de acesso ao conhecimento, mas pelo desperdício dele. Nunca foi tão fácil estudar Bíblia e teologia. Nunca houve tantos livros, cursos, traduções e ferramentas. Ainda assim, preferimos gastar horas consumindo qualquer coisa irrelevante no streaming, enquanto falta disposição para se debruçar sobre o texto bíblico. No fundo, não é falta de recurso. É preguiça intelectual.

E PREGUIÇA É PECADO!

Conclusão: o problema nunca foi a música

“Auê (A Fé Ganhou)” não é um tratado teológico. É uma obra poética, culturalmente situada e teologicamente provocativa. A polêmica que a cerca revela menos sobre a canção e mais sobre o estado do evangelicalismo brasileiro: culturalmente dependente, hermeneuticamente frágil e seletivamente escandalizado e fortemente sincrético.

Tenho a impressão de que a igreja brasileira anda distraída. E isso, com toda certeza, é reflexo do nosso contexto cultural e também de uma aproximação equivocada com outras religiões. Não é algo novo. A igreja, ao longo da história, sempre correu o risco de se perder de tempos em tempos. Mas hoje isso parece acontecer de forma barulhenta e frequente.

Há uma distração constante com eventos, com pastores famosos, com políticos que se colocam como mesias, com congressos de missões lotados, cheios de ruído e pouca ou quase nada de exposição bíblica. A igreja se encanta com o tumulto. Se distrai com práticas claramente sincréticas: campanhas de oração de sete semanas, rosas ungidas, objetos “consagrados”, até absurdos como botas de cobra píton, unção do leão e unsão do riso. Tudo isso vai sendo normalizado.

Enquanto isso, coisas realmente banais ganham atenção, e práticas neopentecostais sem fundamento bíblico passam a ser tratadas como espiritualidade profunda. O resultado é que a igreja vai, aos poucos, se afastando do que é realmente salutar: conhecer a Deus por meio da sua Palavra. Conhecer a Palavra revelada, que é Cristo Jesus, com reverência, profundidade e temor.

Sobre essa polêmica, ouvi de um compositor gospel famoso a frase: “o que nos falta é amor”. E, de certa forma, eu concordo. Mas precisamos deixar claro de que amor estamos falando. O verdadeiro amor não deixa a ovelha no engano, na meninice. Em aguas rasas. O verdadeiro amor não troca a verdade por aplausos. O pastor que ama, quando necessário, usa o cajado. E se for preciso, puxa a ovelha pelo pescoço para livrá-la do precipício.

E ele ainda afirma que a música congregacional precisa ser simples e de fácil compreensão. Concordo apenas em parte. Dá para passar um bom tempo falando sobre como algumas letras dos Salmos não são nada fáceis de entender. Sem contexto histórico e teológico, muitos cânticos realmente soam difíceis logo no primeiro contato.

Mas é preciso lembrar quem era o povo de Israel. Especialmente no reino do sul e na tribo de Judá, não se tratava de um povo ignorante. Eles eram alfabetizados, sabiam ler e escrever e, mais do que isso, eram ensinados na Lei desde a infância. Aquilo fazia parte da formação deles. Ou seja, eles sabiam o que estavam cantando. E nós hoje, temos esse entendimento?

Por isso, entristece perceber o quanto o cristianismo atual perdeu esse hábito. Perdemos o gosto pelo aprendizado, pela profundidade e pelo esforço de compreender como comunidade. E talvez, no caminho, tenhamos confundido simplicidade com superficialidade, e muitas vezes exatamos isso.

Sendo assim, precisamos urgentemente de um retorno às Escrituras. E voltar às Escrituras não é apenas citar versículos ou usar a Bíblia como pano de fundo para ideias pessoais. Voltar às Escrituras significa retornar às doutrinas fundamentais da fé cristã. Significa formar crentes que leem a Bíblia, que estudam a Palavra, que aprendam a discernir o que é verdade do que é apenas barulho religioso. Não devemos nos furtar dessa árdua missão de pregar o evangelho em sua totalidade, com profundidade e diligência.

Talvez seja hora de parar de perguntar se essa ou aquela música é “permitida” e começar a perguntar se nossa fé (o eu pessoal) ainda é capaz de discernir.

Porque quando o evangelho já não pode falar a língua do povo, talvez não seja mais o evangelho que estamos defendendo, mas apenas nossas preferências religiosas travestidas de zelo espiritual.

Que possamos crescer em graça e em conhecimento, não apenas para saber mais, mas para amar melhor a verdade. Que, como um só corpo, sejamos capazes de discernir, identificar e denunciar os verdadeiros lobos do evangelho, aqueles que diluem a verdade travestidos de piedade sem nos distrair com amenidades e coisas banais.

E quem sabe assim teremos menos músicas com "sabor de mel" e mais canções que provoquem desconforto, que façam "auê" na alma do pecador, que o chamem ao arrependimento, à reflexão e ao encontro real com o Deus que fere para curar, confronta para salvar e ama com verdade e graça.

Lucas Lauriano

Sobre Lucas Lauriano

Cristão, casado, engenheiro de software e seminarista no Seminário Martin Bucer. Formado em Sistemas de Informação, transito entre tecnologia e teologia, com muito rock’n roll como trilha sonora dessa dádiva chamada vida.