Poucos textos do Novo Testamento concentram tantas dificuldades em tão poucas palavras quanto 1Pedro 3.18-22. Foi isso que me levou a escolher essa passagem quando precisei escrever um trabalho para a disciplina de Epístolas Gerais no Seminário Martin Bucer. Eu já venho lendo o trecho nos últimos meses, pois é parte fundamental em meu trabalho de TCC no mesmo seminário. Então, me pareceu a desculpa certa para encarar o problema de frente, haja vista que usarei essa pesquisa no final do curso. Este artigo é fruto daquela pesquisa. O centro do problema está no versículo 19.
Pois bem, vamos ao problema. Depois de afirmar que Cristo foi "morto na carne, mas vivificado no espírito", Pedro declara que ele "foi e pregou aos espíritos em prisão" (1Pe 3.18-19, ARA). Ênio Mueller, biblista luterano brasileiro e autor do comentário sobre 1Pedro na série Cultura Bíblica da Vida Nova, resume o peso da passagem: "Apesar de ser bem pequeno, o v. 19 é um dos mais controvertidos de todo o N.T. Praticamente cada uma das suas palavras tem sido objeto de debate na pesquisa bíblica". Paul Achtemeier, biblista presbiteriano norte-americano que escreveu o comentário de 1Pedro na série Hermeneia, vai na mesma direção e o chama de um dos versículos mais curtos e, ao mesmo tempo, o mais problemático da carta, talvez de todo o cânon do Novo Testamento.
O texto levanta cinco perguntas. Quem são os "espíritos"? O que é a "prisão"? Para onde Cristo "foi"? Quando isso aconteceu? O que ele "pregou"? Por trás delas há uma questão maior, que interessa a qualquer cristão que já recitou o Credo Apostólico: o verso ensina que Jesus desceu ao Sheol ou ao Hades entre sua morte e sua ressurreição?
Neste artigo, eu defendo, a partir das costas de gigantes muito mais preparados e com a vida muito mais acadêmica que a minha, duas coisas. Primeiro, que 1Pedro 3.19 é compatível com a compreensão de que Cristo desceu ao domínio dos mortos entre a sexta-feira e a manhã da Páscoa. Segundo, que o versículo não ensina uma segunda oportunidade de salvação depois da morte. A proclamação aos "espíritos em prisão" deve ser lida como anúncio de autoridade e de vitória. Vale dizer desde o início que essa posição não coincide com a leitura majoritária dos comentaristas reformados que consultei, os quais situam a proclamação na ascensão. O que procuro mostrar é algo mais modesto: a leitura da descida da alma de Cristo ao Sheol permanece exegeticamente possível.
O contexto: uma igreja que sofre
A carta se dirige a cristãos que enfrentam hostilidade por causa da fé. Em 3.13-17, Pedro os exorta a responder ao mal com bênção e a estar sempre preparados para dar razão da esperança. O versículo 18 apresenta Cristo como fundamento dessa exortação: ele "sofreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus". A passagem termina em 3.22 com Cristo à direita de Deus, "depois de lhe terem sido sujeitos anjos, potestades e poderes".
Achtemeier observa que, lidos em relação a todo o trecho anterior, os versículos 18-22 oferecem uma base teológica para a resistência dos cristãos à perseguição presente, a saber, a vitória do Cristo a quem invocam sobre as forças do mal, e a vitória implícita deles próprios. Karen Jobes, professora emérita de Novo Testamento no Wheaton College e autora do comentário exegético de 1Pedro publicado no Brasil pela Vida Nova, vê a mesma função: o trecho destaca o poder conquistador da ressurreição e da ascensão, e a interpretação das obscuridades da passagem deve ser regida por essa finalidade de encorajamento.
Há ainda um detalhe de forma. O particípio "tendo ido" (πορευθείς) de 3.19 é repetido em 3.22 para falar da ascensão. Achtemeier vê nessa repetição uma inclusão: a sujeição dos poderes em 3.22 sugere que os "espíritos em prisão" de 3.19 são seres espirituais, e o versículo 19 fica preso, por assim dizer, entre a morte (v. 18) e a exaltação (v. 22). Qualquer leitura precisa respeitar essa moldura.
Uma palavra de cada vez
O texto grego de 3.19 é: ἐν ᾧ καὶ τοῖς ἐν φυλακῇ πνεύμασιν πορευθεὶς ἐκήρυξεν. De modo literal: "no qual também, tendo ido, proclamou aos espíritos em prisão". Cada expressão pede atenção.
"No qual também" (ἐν ᾧ καί). Mueller aponta duas possibilidades. Ou a expressão se refere a "no espírito", a última palavra do versículo 18, ou ao conjunto dos acontecimentos da Paixão. Ele reconhece que a segunda leitura deixaria espaço para que a ida de Jesus aos espíritos tivesse ocorrido entre a morte e a ressurreição, "conforme diz o Credo", mas considera mais natural a referência a "no espírito". Achtemeier também toma "espírito" como antecedente, porém entende o dativo como instrumental: além de ter sido ressuscitado pelo Espírito, Cristo foi, pelo mesmo Espírito e em forma ressurreta, realizar a proclamação.
"Tendo ido" (πορευθείς). Mueller nota que o verbo descreve o ato de ir sem indicar direção, e que é o Credo quem explicita "desceu". Jobes é mais incisiva: "Embora o Credo Apostólico preserve a tradição da igreja referente à 'descida' de Cristo, no texto original o verbo, notavelmente, não é καταβαίνω (katabainō, descer), mas o verbo mais genérico πορεύομαι (poreuomai), cujo significado é meramente 'ir'". Achtemeier conclui que não há necessidade de entender o verbo como "descer"; ele se refere a uma jornada, nada mais. Como o mesmo verbo descreve a ascensão em 3.22, ele lê as duas ocorrências como uma só jornada do Cristo ressurreto.
Aqui cabe uma observação simples. Se o verbo não significa "descer", tampouco significa "subir". A direção é dada pelo destino, e o destino é a "prisão" dos espíritos. A questão, portanto, se desloca para o lugar dessa prisão.
"Aos espíritos em prisão" (τοῖς ἐν φυλακῇ πνεύμασιν). Mueller observa que o uso de "espíritos" para pessoas é raro no Novo Testamento, e que o uso mais comum se refere a seres espirituais, anjos ou demônios. Achtemeier conclui que os "espíritos" de 3.19 são provavelmente sobrenaturais e malévolos, com base no uso absoluto do termo e na tradição judaica sobre os filhos de Deus de Gênesis 6. Quanto à "prisão", Mueller a entende como o lugar onde os espíritos estão, e reconhece que o texto não dá pista do que seria esse lugar nem de onde seria. Achtemeier afirma que φυλακή nunca é usada no Novo Testamento para a morada dos mortos, e sim para o lugar onde Satanás e os demônios estão presos; a localização dessa prisão, porém, é ambígua nas fontes: na terra, nos céus ou no limite de ambos.
"Proclamou" (ἐκήρυξεν). O verbo κηρύσσω normalmente descreve a pregação do evangelho. Mueller lembra, porém, que ele "também pode ser usado em sentido neutro, de 'proclamação' (sem implicar nada sobre o conteúdo)". Achtemeier conclui que o aparecimento do termo não significa automaticamente que o conteúdo da proclamação seja perdão ou salvação. Jobes acrescenta um dado relevante: o verbo específico para o anúncio das boas-novas, εὐαγγελίζομαι, "não é usado para a proclamação de Cristo em 1Pedro 3.19". Esse ponto é decisivo para a tese deste artigo. "Proclamou" preserva a abertura do verbo e permite entender o anúncio como declaração de vitória.
O pano de fundo judaico
A referência aos "dias de Noé" no versículo 20 liga os espíritos ao episódio de Gênesis 6. Mueller mostra que essa história era lida no tempo de Pedro por meio de 1Enoque, obra apocalíptica judaica do período do Segundo Templo, na qual os "filhos de Deus" são anjos que abandonaram sua morada, e Enoque recebe a ordem de ir até eles, onde estavam aprisionados, e proclamar-lhes o castigo. Jobes conclui que, se essa é a tradição subjacente, os espíritos são anjos caídos ou espíritos demoníacos. Achtemeier considera a influência de Enoque extremamente provável, dados os elementos em comum: uma ida, uma proclamação, a espíritos, em prisão, que desobedeceram, no contexto do dilúvio. Jobes lembra ainda que Noé era o personagem bíblico mais conhecido da Ásia Menor, como mostram as moedas cunhadas em Apameia.
Oscar Cullmann, teólogo luterano, professor em Basileia e na Sorbonne e conhecido pela teologia da história da salvação, um clássico na teologia: Cristo e o tempo, oferece um apoio mais amplo a essa premissa. Ao estudar a relação entre Qumran e as origens cristãs, ele afirma que "houve sem dúvida um laço entre o cristianismo primitivo e a literatura judaica tardia de Enoque". Cullmann nega que Jesus tenha sido essênio, mas recusa a conclusão oposta, de que não poderia existir nenhum contato entre os essênios e os primeiros discípulos. O cristianismo primitivo se formou em contato com um judaísmo apocalíptico no qual as tradições de Enoque circulavam. Os primeiros leitores de Pedro, portanto, dificilmente estranhariam a menção a espíritos presos desde os dias de Noé.

A descida ao Sheol/Hades
Considerado um dos maiores teólogos do século 20, Karl Barth costumava dizer que essa ideia de Jesus descendo ao inferno é "o centro do centro" da mensagem, por envolver o aspecto "mais humano possível". Samuel Renihan, pastor batista reformado na Califórnia, conhecido por seus estudos sobre a teologia do pacto na tradição de 1689 e autor de Crux, mors, inferi, uma introdução à doutrina da descida de Cristo, sintetiza o quadro bíblico: "As Escrituras ensinam que o sheol é o lugar comum de todos os mortos, justos ou injustos". A Septuaginta traduz "sheol" por "hades", e os anjos ímpios estão presos num compartimento mais profundo do hades, chamado tártaro, conforme 2Pedro 2.4 e Judas 6. Mueller, ao expor a primeira leitura da passagem, reconhece o mesmo quadro: "Os mortos, então, iam para o Hades, onde, segundo a tradição que aparece aqui em 1 Pedro, os desobedientes se encontravam aprisionados".
Renihan lê 1Pedro 3.18-22 como descrição da descida. Cristo, como alma humana, fez uma proclamação aos anjos encarcerados no tártaro. Ele enfatiza que essa proclamação foi um anúncio de vitória e uma vindicação do Cristo a quem tinham assassinado, sem qualquer traço de oportunidade evangelística para os que morreram na incredulidade. A sua síntese, nas palavras dele mesmo: "Jesus Cristo desceu não para perecer, mas para libertar; não para sofrer, mas para subjugar; não para pregar, mas para proclamar".
Karl Barth costumava dizer que essa ideia de Jesus descendo ao inferno é "o centro do centro" da mensagem, por envolver o aspecto "mais humano possível".
Mueller chega a um resultado próximo por outro caminho. Ele prefere a leitura dos anjos aprisionados e situa a proclamação de sua derrota nas "regiões celestes", por ocasião da ascensão. Mas reconhece uma segunda tradição, presente em Apocalipse 9, que localiza anjos presos num lugar subterrâneo, o "poço do abismo". E conclui que, dentro dessa tradição, Cristo poderia ter descido às regiões subterrâneas para proclamar sua vitória e o juízo aos demônios ali encarcerados, e depois subir ao céu, fazendo no caminho o mesmo com as forças espirituais das regiões do ar.
Tem-se então algo digno de nota: um comentarista que não defende a descida admite que a tradição bíblica sobre a prisão dos anjos permite situá-la debaixo da terra. Nesse caso, a "ida" de 3.19 pode ser uma descida, sem que o verbo precise significar "descer".
A recepção na igreja antiga
J. N. D. Kelly, patrólogo anglicano de Oxford e autor de Early Christian Creeds, outro clássico, um obra de referência sobre a história dos credos, mostra que a cláusula "desceu ao inferno" entrou tardiamente nos credos, e que Rufino de Aquileia, autor de um comentário ao Credo no fim do século IV, a relacionou a 1Pedro 3.19. A crença, porém, é anterior à cláusula. Nas palavras de Kelly, "a crença de que Cristo passou o intervalo entre sua morte na cruz e sua ressurreição no mundo inferior era um lugar-comum do ensino cristão desde os tempos mais antigos". A lógica era simples: dizer que Jesus Cristo havia morrido, ou que havia sido sepultado, equivalia a dizer que ele havia passado ao Sheol.
Kelly também registra o problema que a tradição enfrentou. Uma corrente entendia que Cristo pregou a salvação aos justos da antiga aliança; outra, que ele realizou um ato triunfante de libertação. As dificuldades da primeira eram que os santos do Antigo Testamento dificilmente precisavam de iluminação, já que haviam previsto a vinda de Cristo, e que parecia inapropriado que os não convertidos recebessem uma segunda oportunidade de arrependimento no outro mundo. Por isso a segunda linha, centrada na libertação dos santos e na derrota de Satanás, prevaleceu no Ocidente.
Mueller faz uma ressalva metodológica importante. Nos dois primeiros séculos, a descida era difundida, mas não era relacionada a 1Pedro 3.19. Daí sua conclusão: "Isto para deixar claro, desde logo, que o texto de 1 Pedro deve ser interpretado independentemente".
Concordo com ele nesse ponto. A tradição, embora deva ser levada em consideração aqui e em qualquer outro estudo ou discussão acerca do texto bíblico, para não incorrermos em falácia genética, mostra apenas que a leitura da descida tem raízes antigas e não necessariamente que esse seja o sentido correto do texto.
Cullmann ajuda a evitar esse mal-entendido. A descida não exige a ideia grega de uma alma naturalmente imortal. Segundo ele, o Novo Testamento ensina que o estado intermediário existe e que ele já significa comunhão com Cristo, e acrescenta: "De nenhum modo trata-se do purgatório". A morte de Cristo, nessa perspectiva, é uma morte real. Renihan diz o mesmo com outra ênfase: o Cristo cuja alma desceu ao Sheol não foi abandonado ali.
A tradição reformada e o descensus
A tradição reformada confessa o Credo Apostólico com a cláusula da descida, mas a reinterpretou. Como Renihan argumenta, "para Calvino, a descida ao inferno foi uma metáfora para os sofrimentos de Cristo na cruz". Segundo Jobes, João Calvino se incomodou com a ideia de conversão após a morte e, em seu comentário, entendeu a "prisão" como uma torre de vigia onde os fiéis aguardavam a salvação: Cristo, entre sua morte e sua ressurreição, proclama sua vitória, que para esses espíritos piedosos é a boa-nova de que sua salvação está agora assegurada, e para os réprobos é a palavra definitiva de sua exclusão.
A tradição reformada, contudo, nunca foi uníssona sobre o "lugar" da descida. Renihan mostra que teólogos reformados menos conhecidos mantiveram a leitura local, isto é, a descida da alma de Cristo ao domínio dos mortos. Quem sustenta essa leitura hoje, portanto, permanece dentro da família reformada.

As leituras alternativas e a segunda oportunidade
Cristo pregou por meio de Noé. Segundo Kelly, depois de Agostinho de Hipona a leitura predominante no Ocidente passou a explicar 1Pedro 3.19 como uma missão de Cristo aos contemporâneos de Noé, antes da encarnação, por meio da pregação do próprio Noé. Jobes explica a motivação: Agostinho queria proteger o caráter final da morte quanto à decisão de conversão. A leitura, porém, não faz justiça à construção paralela de 3.18 e à frase de abertura de 3.19. As referências à morte e à ressurreição no versículo 18 tornam questionável que os eventos do versículo 19 às tenham precedido.
Proclamação aos anjos na ascensão. Esta é a leitura de Achtemeier, de Jobes, de G. K. Beale, teólogo reformado norte-americano, e, com nuances, de Mueller. Para Achtemeier, o conteúdo do anúncio aos espíritos aprisionados seria a sua condenação, como resultado da ressurreição vitoriosa de Cristo. Beale escreve que a proclamação aos espíritos em prisão é provavelmente uma referência a Cristo proclamando sua vitória na ressurreição e a derrota de todas as forças satânicas e antagônicas enquanto ascendia ao céu. Jobes conclui: "Portanto, não é possível defender a doutrina do descensus de Cristo ao inferno com base em 1Pedro 3.19".
Essa leitura tem força, e é a majoritária. Mas ela repousa em duas decisões que não são obrigatórias. A primeira é situar a prisão dos anjos nos céus, quando as fontes, como o próprio Achtemeier reconhece, são ambíguas quanto à localização. A segunda é ler ἐν ᾧ como estritamente posterior à ressurreição, quando Mueller admite a referência ao evento da Paixão como um todo. Se a prisão pode ser subterrânea e se a "ida" pode pertencer ao intervalo entre morte e ressurreição, o texto não exclui a leitura da descida. O que se mantém da leitura majoritária, e com razão, é o conteúdo da proclamação: vitória e juízo.
Descida para pregar aos mortos. A leitura alexandrina, associada a Clemente de Alexandria e a Orígenes, entende que Cristo desceu e ofereceu o evangelho aos mortos da geração de Noé, tomados como paradigma de todos os que morreram sem ouvir a boa-nova. Mueller expõe essa leitura com cuidado, mas nota que "uma implicação de que toda a humanidade e todo o mundo angélico foi automaticamente salvo com isso vai muito além do que o autor está afirmando aqui, e contradizendo outras passagens da carta, onde se espera o julgamento dos desobedientes ao evangelho (4.5,17)". Achtemeier, citando Ernest Best, biblista escocês que também comentou 1Pedro, afirma que não há evidência na passagem de uma "segunda chance" para os homens após a morte. Jobes acrescenta que "o texto de 3.19,20 limita especificamente a pregação de Cristo aos 'espíritos' desobedientes da época de Noé", o que deixa sem base bíblica a ampliação dessa oferta a todos os que viveram antes de Cristo. Quanto a 1Pedro 4.6, que fala do evangelho pregado "até aos mortos", Achtemeier e Beale entendem os "mortos" como cristãos que ouviram o evangelho em vida e morreram antes da volta de Cristo, de modo que o versículo não obriga a ler 3.19 como evangelização dos mortos.
Onde este artigo se situa
A posição aqui defendida concorda com Renihan em que Cristo entrou no domínio dos mortos e ali proclamou sua vitória. Concorda com Achtemeier, Jobes, Beale e Mueller em que os "espíritos" são provavelmente os anjos de Gênesis 6 e em que o conteúdo da proclamação é juízo e triunfo. E discorda da leitura alexandrina, para a qual a proclamação seria uma oferta de salvação. O resultado preserva a força da confissão "desceu ao Hades" sem transformar 1Pedro 3.19 em prova de uma segunda oportunidade.
Resumindo o argumento: o verbo "ir" de 1Pedro 3.19 não indica direção; a "prisão" dos anjos rebeldes pode ser situada, segundo Apocalipse 9 e 2Pedro 2.4, debaixo da terra; e "no qual também" pode abranger o evento da Paixão como um todo. Por essas razões, o versículo é compatível com a confissão de que Cristo desceu ao Sheol/Hades entre sua morte e sua ressurreição. Ao mesmo tempo, κηρύσσω (kērýssō, em 2 Timóteo 4:2, “Pregue a palavra”, κηρύσσω τὸν λόγον ou kērýssō ton logon) admite o sentido neutro de "proclamar", os espíritos são mais provavelmente seres angélicos, e o contexto aponta para a vitória de Cristo sobre todos os poderes (3.22). A tradição antiga, como Kelly mostra, já sentia a inconveniência de uma segunda oportunidade de arrependimento, e a tradição reformada, mesmo dividida sobre o lugar da descida, nunca a admitiu.
Para a igreja que sofre
Pedro escreveu esse trecho para cristãos que estavam sendo caluniados, excluídos e ameaçados por causa de Cristo, e nada tão atual. E quando lemos isso vemos consolo e também uma cosmologia, que não era nova para aquela comunidade. Ele estava reforçando que por trás da hostilidade dos vizinhos há poderes espirituais, e esses poderes conhecidos desses leitores já ouviram o anúncio da própria derrota.
Seja qual for a leitura que o cristão adote sobre o lugar e o momento da proclamação, o sentido pastoral permanece o mesmo. O Cristo que foi até as profundezas foi exaltado acima de todos. Não há canto do universo, nem o mais escuro, onde a sua vitória não tenha sido anunciada. A morte que ele morreu foi uma morte real, com tudo o que a morte significa para um ser humano, e ele saiu dela como Senhor. Como escreve Oscar Cullmann, Cristo é "Senhor de mortos e vivos".
Isso muda a maneira em que o crente passa pelo sofrimento. O cristão que é ridicularizado no trabalho, pressionado pela família ou perseguido por leis injustas e governantes tiranos sabe que o inimigo por trás disso tudo já foi proclamado vencido pelo próprio Cristo. A prisão dos espíritos está trancada. O túmulo do Senhor está aberto. E o mesmo Jesus que desceu até onde nenhum de nós gostaria de ir está hoje à direita de Deus, intercedendo por aqueles que sofrem por levar o seu nome. Quem tem esse Senhor pode responder ao mal com o bem, porque a última palavra sobre o maligno já foi dita. Louvado seja Deus!
Referências Bibliográficas

Crux, Mors, Inferi: A Doutrina da Descida de Cristo, Uma Introdução
Samuel D. Renihan, O Estandarte de Cristo, 2022
Embora a descida de Cristo tenha sido descrita repetidamente como uma “doutrina negligenciada” a ponto de se tornar um cliché, ela continua sendo necessária.

1 Peter: A Commentary on First Peter
Paul J Achtemeier, Fortress Press, 1996
Este comentário, fruto de anos de pesquisa, é uma mina de ouro para o clero e um recurso indispensável para estudantes e acadêmicos.

(Hermeneia). BEALE, G. K. A New Testament biblical theology: the unfolding of the Old Testament in the New
G. K. Beale, Baker Academic, 2011
Nesta exposição abrangente, um renomado estudioso do Novo Testamento explora a unidade teológica de toda a Bíblia, a partir da perspectiva do Novo Testamento.

Das origens do Evangelho à formação da teologia cristã
Oscar Culmman, Fonte Editorial, 2018
A obra investiga as origens dos evangelhos, discutindo sua formação, fontes e contextos históricos que influenciaram sua composição.

1pedro: comentário exegético
Karen H. Jobes, Vida Nova, 2022

Early Christian creeds
J. N. D. KELLY, Routledge, 2014

1 Pedro: introdução e comentário.
Ênio R. Mueller, Vida Nova, 2006
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Sobre Lucas Lauriano
Cristão, casado, engenheiro de software e seminarista no Seminário Martin Bucer. Formado em Sistemas de Informação, transito entre tecnologia e teologia, com muito rock’n roll como trilha sonora dessa dádiva chamada vida.


