A centralidade da doutrina trinitária na fé cristã

Lucas Lauriano

Lucas Lauriano

· 17 min leitura
Fonte: acervo Protocolo95

Agostinho abre o seu tratado sobre a Trindade com um aviso: em nenhum outro assunto o erro é mais perigoso, a investigação mais difícil e a descoberta da verdade mais proveitosa (De Trinitate, I.1.3). Neste texto vamos passar pela Bíblia e pela história da Igreja para ver por que ele tinha razão.

O menino na praia

Existe uma história antiga sobre Agostinho. Ele caminha à beira do mar, com a cabeça cheia de perguntas sobre a Trindade, e encontra um menino que cavou um buraco na areia. O garoto enche uma concha de água do mar e despeja no buraco, várias vezes. Agostinho pergunta o que ele está fazendo. O menino responde que vai colocar o mar inteiro ali dentro.

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Agostinho sorri e explica que o mar é grande demais e o buraco é pequeno demais. O menino devolve: é mais fácil colocar o mar neste buraco do que você entender, com a sua mente finita, o mistério infinito da Trindade. Quando Agostinho olha de novo, o menino desapareceu.

A história é uma lenda medieval e não aparece nos escritos de Agostinho. Contudo, ficou famosa porque descreve bem a sensação de quem estuda esse assunto. A gente despeja a concha cheia de agua, olha o buraco, e o mar continua enorme. Agostinho seguiu escrevendo mesmo assim, por quase vinte anos. Ele sabia que a doutrina da Trindade guarda o coração da fé cristã.

Por que a Trindade importa

Pense no último sermão que você ouviu. Em algum momento o pastor falou do Pai, do Filho e do Espírito Santo como pessoas distintas, cada uma com a sua parte na sua salvação? Para muita gente, a resposta é um silêncio constrangedor, eu mesmo já vi pessoas convertidas de longas datas travarem em explicar a trindade.

Robert Letham, no livro A Trindade, descreve essa doutrina como o plano básico da adoração, da missão e da vida cristã. Quando ela sai do centro, outra coisa ocupa o lugar, e a teologia e a devoção ficam mais pobres. Ele observa uma sequência curiosa nas igrejas evangélicas. Houve épocas em que quase só se falava do Espírito Santo. Depois, quase só do Pai e da adoção. Depois, quase só do Filho. Cada ênfase carrega alguma verdade, e sozinha ela entorta o conjunto todo. Afirmo, que se existe alguma prática estranha ao evangelho em sua igreja, ela é oriunda do péssimo entendimento que os líderes tem dessa doutrina.

O próprio evangelho já vem com estrutura trinitária. Em Efésios 1.3-14, Paulo escreve uma frase enorme e dentro dela cabe a salvação inteira.

O Pai nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo. O Filho nos redimiu pelo seu sangue. O Espírito Santo nos selou como penhor da promessa.
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Herman Bavinck, em sua Dogmática Reformada, soma um argumento muito poderoso. Um Deus que fosse uma única pessoa, sozinha por toda a eternidade, não poderia ser amor em si mesmo, porque amor pede alguém para amar. A Bíblia diz que Deus é amor (1Jo 4.8). Isso já era verdade antes da criação, porque desde sempre o Pai ama o Filho no Espírito. Quando você lê que Deus te ama, está lendo um convite para entrar numa comunhão de amor que existe desde a eternidade.

Bavinck descreveu a doutrina da pericorese que está dentro do dogma trinitário e que descreve como três Pessoas da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo coexistem em união perfeita e mútua habitação, sendo um único Deus. Na teologia, ela serve para garantir duas verdades centrais do cristianismo: que Deus é um só em essência, mas se manifesta em três Pessoas distintas, sem que elas se separem ou se dividam. O termo foi usado inicialmente por Gregório de Nazianzo e desenvolvido de forma mais ampla por João Damasceno na literatura patrística.

O que a Igreja confessa

O Catecismo Menor de Westminster, na pergunta 6, resume a doutrina assim:

há três pessoas na Divindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e as três são um só Deus, da mesma essência, iguais em poder e glória.

E aqui precisamos entender o que é essência e pessoa.

A essência, que os gregos chamavam de ousia. É o que Deus é, a natureza divina. Ela não vem cortada em fatias, como uma pizza dividida entre três. Porém, cada pessoa possui a essência divina por inteiro.

As pessoas, que os gregos chamavam de hypostasis. É o que faz o Pai ser o Pai, o Filho ser o Filho e o Espírito ser o Espírito.

Agostinho admitia que a palavra "pessoa" fica curta. Segundo ele, usamos o termo para não ficarmos calados diante de Deus. A linguagem humana é pequena e a realidade é imensa, mas é o melhor vocabulário que temos.

Três tropeços

Letham compara a doutrina a uma trilha estreita no alto de uma montanha, com precipício dos dois lados. E aqui vale conhecer o que existe em cada um dos lados desse precipício.

Triteísmo. Formulada no século VI por João Filopono. É a ideia de três deuses. Pai, Filho e Espírito seriam três seres que dividem uma natureza divina, do mesmo jeito que três homens dividem a natureza humana, e seriam também três substâncias ou essências diversas. O resultado é politeísmo, como os egípcios com Osíris, Isis e Hórus, ou na mesopotâmia com Anu, Enlil e Ea, ou os hindus com Brahma, Vishnu e Shiva.

Modalismo, ou sabelianismo. Doutrina defendida por Sabélio no século III. Aqui existe um único Deus, uma única pessoa, que usa três máscaras e aparece ora como Pai, ora como Filho, ora como Espírito. Pense agora nos desdobramentos bizarros desse pensamento. Se assim fosse, o Pai teria morrido na cruz, e Jesus teria orado para si mesmo no Getsêmani. Esse erro reaparece hoje na teologia da Unicidade defendida pela igreja Voz da Verdade, que batiza apenas em nome de Jesus. Reaparece também em versões suaves, em sermões e cânticos que misturam as pessoas e funções sem perceber, como a música da Aline Barros.

Graças eu te dou Pai, pelo preço que pagou...

Subordinacionismo. Ele aceita chamar o Filho de Deus, mas de um Deus de segunda divisão. A Igreja sempre reconheceu uma ordem entre as pessoas. O Filho é gerado pelo Pai e o Espírito procede do Pai. Essa ordem fala da origem de cada pessoa e deixa intacta a dignidade de todas. O Filho é Deus verdadeiro de verdadeiro Deus.

Resta a objeção clássica: "um e três? Isso é contradição." Seria, se disséssemos um em essência e três em essência. A Igreja diz um em essência e três em pessoas, e são coisas diferentes. A objeção esconde ainda um pressuposto, o de que Deus precisa existir do mesmo jeito que uma criatura.

A Trindade na Bíblia

Quem diz que a palavra Trindade não aparece na Bíblia tem razão. A palavra surgiu depois. Não obstante, a realidade que ela descreve atravessa as Escrituras de ponta a ponta.

No Antigo Testamento, Israel vivia cercado de povos politeístas, e o Shemá afirma que o Senhor é um (Dt 6.4). Esse alicerce precisava ficar firme. Bavinck diz que as sementes da revelação trinitária já estavam plantadas ali. Em Gênesis 1 aparecem Deus criando, a Palavra que fala e o Espírito que paira sobre as águas. O Salmo 33.6 junta os três: pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e pelo sopro da sua boca, todo o exército deles.

No Novo Testamento, a cortina se abre.

Em Mateus 3.16-17, Jesus é batizado. O Filho está dentro da água, o Espírito desce como pomba e a voz do Pai diz do céu: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo." O ministério de Jesus começa com uma cena trinitária. E já havíamos visto isso em Gênesis 1.

Em Mateus 28.19, Jesus manda batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Repare na gramática. A palavra "nome" está no singular e depois dela vêm três pessoas. Se Pai, Filho e Espírito fossem o mesmo sujeito, a frase ficaria sem sentido. Se fossem três deuses, "nome" estaria no plural.

Em 2 Coríntios 13.14, Paulo se despede da igreja com a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo. Os cristãos do primeiro século já oravam assim.

Em João 14 a 17, na última noite de Jesus com os discípulos, o Filho pede ao Pai, e o Pai envia o Espírito. O Espírito testemunha do Filho e o glorifica (Jo 16.14). O Filho glorifica o Pai (Jo 17.4). Andreas Köstenberger e Scott Swain, em Pai, Filho e Espírito, tratam o Evangelho de João como a fonte mais rica da Escritura para conhecer o Deus trino.

Em Hebreus 9.14, a própria cruz aparece sob essa luz. Cristo, pelo Espírito eterno, se ofereceu sem mácula a Deus.

A Igreja precisou de palavras que a Bíblia não usa por causa de quem usava as palavras da Bíblia para ensinar outra coisa.

Ário, Atanásio e Nicéia

Por volta do ano 200, Tertuliano escreve em latim e cunha a palavra Trindade. A fórmula dele atravessa os séculos: uma substância, três pessoas e chega até nós. Alguns pensadores da época ainda carregavam traços de subordinação do Filho ao Pai, e desse terreno surge Ário, presbítero em Alexandria, no começo do século IV.

Ário ensinava que houve um tempo em que o Filho não existia. Para ele, o Filho era a mais perfeita das criaturas, divino de um modo delegado. E ele tinha texto na mão. Provérbios 8.22 fala do Senhor que me criou como primícia de suas obras. João 14.28 diz que o Pai é maior do que eu. A discussão cresceu até que, em 325, o Concílio de Nicéia reuniu os bispos para decidir. Nesse mesmo concílio, conta-se, obviamente uma lenda medieval, que São Nicolau (Papai Noel), esbofeteou Ário.

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O argumento de Atanásio, em resumo, era este: se o Filho é uma criatura, quem nos salva é uma criatura, e criatura nenhuma consegue nos unir a Deus. Só Deus pode dar a vida de Deus. A discussão toda girava em torno da salvação.

Os bispos precisavam de uma palavra que Ário não pudesse reinterpretar, porque ele aceitava qualquer frase bíblica. Escolheram uma que nem está na Escritura: homoousios, "da mesma essência". O Filho tem a mesma essência do Pai. Existia uma alternativa mais confortável, homoiousios, "de essência semelhante". Entre as duas palavras há um iota, a menor letra do alfabeto grego. Essa letra separa um Filho que é Deus de um Filho que é a maior das criaturas.

A briga continuou por décadas. Imperadores simpáticos ao arianismo pressionaram os bispos, e Atanásio foi exilado cinco vezes. Ficou conhecido pela expressão latina Athanasius contra mundum, Atanásio contra o mundo.

Os Capadócios e o Espírito Santo

No século IV entram em cena Basílio de Cesareia, Gregório de Nissa e Gregório de Nazianzo. Eles notaram que o vocabulário estava embolado. Ousia e hypostasis eram usadas como sinônimos, e "três hypostaseis" soava como três essências, ou seja, três deuses. Basílio arrumou a casa. Ousia ficou para o que as três pessoas têm em comum. Hypostasis ficou para o que é próprio de cada uma. Uma essência, três pessoas.

Os Capadócios também enfrentaram os pneumatômacos, nome que significa "combatentes do Espírito". Para eles, o Espírito era uma força ou uma criatura superior. Gregório de Nazianzo usou o mesmo raciocínio de Atanásio: se o Espírito não é Deus, ele não pode nos santificar, porque só Deus comunica a santidade de Deus. O Concílio de Constantinopla, em 381, confirmou a divindade do Espírito e completou o credo que muitas igrejas recitam até hoje

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Agostinho

Agostinho dedicou cerca de vinte anos ao De Trinitate. Ele parte da essência divina una e mostra as três pessoas dentro dela. Na segunda metade da obra, busca na alma humana, criada à imagem de Deus, reflexos da Trindade, como mente, conhecimento e amor. Ele mesmo avisa que essas analogias são sinais deixados pelo Criador na criatura. A Trindade não se deduz da psicologia humana.

Agostinho também ensina que o Espírito procede do Pai e do Filho, o famoso filioque. Já o Ocidente, incorporou a expressão ao credo, o Oriente rejeitou e a controvérsia pesou no Cisma de 1054, mas isso é história para outro artigo. Esse assunto merece um texto só dele, talvez quando falarmos sobre a pessoa de Cristo e o desenvolvimento da cristologia ao longo dos séculos.

Olhando para trás, esses homens guardaram o que as Escrituras já diziam, diante de quem usava as palavras da Bíblia para dizer outra coisa. E hoje em dia ainda vemos muitos ressuscitando velhas heresias, ou por falta de entendimento ou na tentativa de validar suas práticas erradas, como o famoso tele evangelista jogador de ternos. Ele causou grande polêmica ao ensinar que a Trindade seria composta por nove "elementos" distintos, sugerindo que o Pai, o Filho e o Espírito Santo teriam, cada um, corpo, alma e espírito próprios. Seria a raposa de nove caudas do Naruto.

A Trindade e a adoração

O entendimento correto da doutrina muda o jeito de orar, e te coloca em reverência, por que por mais que você tente, usa mente finita não ira conceber a infinitude desse Deus. Efésios 2.18 diz:

por meio de Cristo, judeus e gentios têm acesso ao Pai em um só Espírito.

Oramos ao Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo. Cristo é o caminho, a verdade e a vida, o mediador que abre a porta. O Espírito nos faz clamar "Aba, Pai".

Os pais gregos, como Basílio e Cirilo de Alexandria, liam João 4.23-24 nessa chave. Adorar o Pai em espírito é adorar no Espírito Santo, e adorar em verdade é adorar em Cristo, que disse ser a verdade.

Em João 17.21, Jesus pede que os seus sejam um, assim como o Pai está nele e ele no Pai. A unidade da igreja nasce dessa comunhão, conforme 1 João 1:3 :

O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo.

Calvino resumiu a obra de Deus nas Institutas (I.13.18): ao Pai pertence o princípio e a fonte da ação, ao Filho a sabedoria, o conselho e a ordenação de tudo, e ao Espírito a eficiência e o poder da ação. Uma obra, três pessoas.

Não conseguimos com esse artigo nem arranhar a superfície das implicações a cerca da trindade para a vida pratica do cristão e da igreja local. Se faz necessário que falemos cada vez mais dos mistérios e da profundidade que é o conhecimento de Deus. E que ele nos dê graça, humildade, sabedoria e temor para nos debruçar cada vez mais sobre a sã doutrina a fim de que nossa adoração, oração, convivência com os irmãos, familiares e amigos possam ser moldadas para a Sua honra e glória.

A Trindade é o Deus a quem a gente adora. O Pai nos escolheu, o Filho nos comprou com o seu sangue e o Espírito nos selou. Cada um desses atos vem do próprio Deus a nosso favor.

“Filhinhos, amai-vos uns aos outros”. Quando lhe perguntaram por que insistia

em repetir apenas essas palavras, João dizia: “Porque é mandamento do Senhor, e, se fizermos apenas isso, será suficiente”

Onipotente e Eterno Deus, que deste a nós teus servos a graça de reconhecer a glória da eterna Trindade pela confissão da verdadeira fé e, no poder da Majestade Divina, adorar a unidade, mantém-nos firmes nessa fé, defende-nos sempre de todas as adversidades, tu que vives e reinas, Deus único, pelos séculos dos séculos. Amém (Robert Letham - A Trindade)

Fontes

  1. BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada, vol. 2: Deus e a Criação, cap. 6. Vida Nova, 2012.
  2. LETHAM, Robert. A Trindade: na Escritura, história, teologia e adoração. Vida Nova, 2022.
  3. KÖSTENBERGER, Andreas J.; SWAIN, Scott R. Pai, Filho e Espírito: a Trindade e o Evangelho de João. Vida Nova, 2014.
  4. AGOSTINHO. A Trindade (De Trinitate). Paulus, 2005.
  5. Catecismo Menor de Westminster, P. 6.
  6. CALVINO, João. As Institutas, I.13.18.
Lucas Lauriano

Sobre Lucas Lauriano

Cristão, casado, engenheiro de software e seminarista no Seminário Martin Bucer. Formado em Sistemas de Informação, transito entre tecnologia e teologia, com muito rock’n roll como trilha sonora dessa dádiva chamada vida.