Sermão sobre 1 João 1:1–4
ILUSTRAÇÃO DE ABERTURA
Em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong desceu os degraus do módulo lunar e pisou naquele solo e Buzz Aldrin veio logo atrás. Ele olhou ao redor: o horizonte sem vida, o céu inteiramente negro, o silêncio de um lugar que nenhum ser humano jamais havia tocado. E disse apenas:
"Beautiful. Beautiful. Magnificent desolation."
Bela. Magnífica desolação.
Dois homens, naquela imensidão do espaço, vendo com os próprios olhos o que ninguém na história tinha visto até então.
Mas até hoje tem gente que diz que isso nunca aconteceu. Que foi filmado num estúdio, que a bandeira balançou errado ou que a sombra estava no ângulo errado. Enfim, existem livros, documentários e canais inteiros dedicados a negar o que aconteceu.
E como se responde a isso? Com testemunhas oculares. Armstrong estava lá. Aldrin estava lá. Eles viram. Tocaram. Voltaram para contar. E o testemunho deles, confirmado por centenas de milhares de pessoas que trabalharam naquela missão, pesa mais do que qualquer teoria de quem veio depois, ou que não era nem nascido.
Você acredita que o homem foi à Lua sem ter estado lá porque confia em quem esteve.
É com essa mesma lógica, mas com um peso infinitamente maior, que o apóstolo João abre a sua carta.
João também estava lá quando o mestre andou e pregou por essa terra. Viu o que ninguém mais viu. E no mundo dele também havia gente negando o que tinha acontecido. Dizendo que Jesus não tinha corpo de verdade. Que a encarnação era ilusão. E que o que os apóstolos viram não era bem o que pensavam ter visto.
E João, o último apóstolo vivo, responde da única forma que um homem que esteve lá pode responder:
"O que vimos com nossos olhos. O que nossas mãos tocaram. Isso anunciamos a vocês."
INTRODUÇÃO E CONTEXTO DA CARTA
João, o discípulo amado, escreve por volta do ano 90, provavelmente de Éfeso, onde passou os últimos anos da vida. É o único dos doze apóstolos ainda vivo. Pedro tinha sido crucificado, Tiago decapitado e Paulo martirizado em Roma. João era o último dos primeiros líderes dessa nova seita judaica, como o mundo a chamava.
Jerônimo conta uma história sobre esse João já bem velho. Ele precisava ser carregado até a congregação nos braços dos discípulos, e quando chegava não conseguia dizer muita coisa além de "filhinhos, amai-vos uns aos outros". Um dia, cansados de ouvir sempre a mesma frase, perguntaram por que ele repetia aquilo. E ele respondeu que aquele era o mandamento do Senhor, e que se fosse praticado, já era o suficiente. É esse homem que pega a pena para escrever a carta que temos diante de nós.
As igrejas ao redor dele estavam em crise!
Tinha surgido dentro das comunidades um grupo com ideias que pareciam elevadas. Diziam ter um conhecimento mais profundo de Deus, uma iluminação espiritual que os outros crentes, mais simples, não tinham alcançado. E ensinavam que Jesus não tinha um corpo de verdade. Para eles a matéria era suja, uma prisão da alma, e o Filho eterno de Deus jamais poderia ter se misturado com ela. A encarnação, portanto, teria sido apenas uma aparência.
A história da igreja chama isso de docetismo, do grego dokein, "parecer". Jesus parecia ter corpo, mas não tinha. Havia ainda uma versão mais sofisticada desse erro, e ela circulava exatamente em Éfeso, através de um homem chamado Cerinto. Irineu conta que João certa vez entrou numa casa de banhos, percebeu que Cerinto estava lá dentro e saiu correndo sem tomar banho, gritando que o lugar podia desabar porque o inimigo da verdade estava ali. Cerinto ensinava que Jesus era só um homem comum, filho de José e Maria, e que o "Cristo" divino desceu sobre ele no batismo e o abandonou antes da cruz. Ou seja, quem morreu no Calvário foi apenas o homem Jesus. O Cristo celestial não sofreu nada.
O problema é que esse grupo não vinha de fora. Eram pessoas que tinham sentado nos mesmos cultos, cantado os mesmos hinos, partido o mesmo pão. E aí saíram, e levaram gente junto. João diz em 2:19:
"Eles saíram de nós, mas não eram de nós."
Imagina o que isso fez com uma comunidade pequena. Provavelmente gerou confusão e dúvida. Será que os que saíram sabiam alguma coisa que nós não sabemos? Será que a nossa fé é a versão mais simples de algo que eles entenderam melhor? E veja, que eles saíram por que pregavam um outro evangelho. Hoje vemos igrejas ensinando que a cultura é motivo de ruptura com membros, mas, moralismo barato, legalismo, falta de entendimento bíblico e heresias são aceitos normalmente. Entendidos como apenas um processo, logo ele chega lá.
Mas com João, ele que tinha mais autoridade do que qualquer pessoa viva para falar sobre isso. Então, ele pega a pena para escrever como um pai com o coração partido pela sua casa.
Um dos objetivos da carta era, além de refutar o erro, pastorear os que ficaram. Firmar os pés no chão. É isso que João quer fazer com a sua igreja. Firmar os passos novamente na fé do Cristo ressuscitado, aquele que ele mesmo tinha visto morrer e visto vivo.
EXPOSIÇÃO
Versículo 1
"O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida."
Esse versículo é tão denso e profundo, cheio de verdades bíblicas, que renderia uns dois domingos só nele.
A primeira coisa que chama atenção é que a carta não tem saudação nenhuma. Nenhuma outra carta do Novo Testamento começa assim, com exceção de Hebreus. João não se apresenta, não cumprimenta ninguém, não diz "graça e paz". Ele simplesmente começa a falar daquilo que está queimando dentro dele.
E o grego é confuso de propósito. João abre com quatro frases seguidas antes de chegar ao verbo principal, que só aparece no versículo 3. Os comentaristas chamam isso de um nó gramatical. É como se o peso do que ele vai dizer fosse maior do que a frase consegue segurar, e as palavras saíssem antes de ele conseguir organizar a sintaxe.
"O que era desde o princípio." Esse "era" não diz que Jesus começou lá atrás em algum ponto do tempo. O verbo está no imperfeito, que descreve uma existência contínua, sem começo. É a mesma construção do Evangelho de João: "No princípio era o Verbo." Aquele de quem João fala já estava lá quando tudo o mais começou a existir. E o versículo 2 vai completar isso dizendo que ele "estava com o Pai". O Filho eterno não passou a eternidade sozinho. Ele estava em comunhão consciente e íntima com o Pai antes de qualquer coisa ser criada. Chamamos isso de pericorese, guarda isso, porque vai voltar no versículo 3.
"O que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam."
Repare nessa progressão, meus irmãos. Ela vai do mais abstrato ao mais material e palpável. Ouvir não era suficiente, porque o povo de Deus no Antigo Testamento também ouvia a voz do Senhor. Ver já era mais forte. Mas apalpar foi a prova definitiva de que aquilo tinha carne e osso de verdade. Ele apela a todos os sentidos.
E não é por acaso que João usa o perfeito grego nos dois primeiros verbos. O perfeito descreve uma ação passada cujos efeitos continuam no presente. Ouvimos, e aquilo ficou. Vimos, e ainda está gravado. Já "contemplamos" e "apalparam" estão no aoristo, que é um aspecto e tempo verbal encontrado em línguas indo-europeias antigas, como o grego clássico e o sânscrito, que aponta para uma ocasião específica. Muito provavelmente João está lembrando das aparições depois da ressurreição, quando Jesus disse "apalpai-me e vede, porque um espírito não tem carne nem ossos", e quando chamou Tomé para colocar o dedo nas marcas dos cravos.
A palavra "contemplamos" é theasthai, que quer dizer mais do que dar uma olhada. É observar com atenção, tentando entender o que se está vendo. E "apalpar" é psēlaphan, que descreve alguém tateando como um cego, examinando de perto com as mãos. João está dizendo que os apóstolos não apenas viram Jesus passar. Eles o estudaram com os olhos e o examinaram com as mãos.
Curiosamente, mesmo o toque sendo o clímax da frase, o verbo que mais aparece nesses três versículos é "ver". Quatro vezes. Porque é a vista que qualifica alguém como testemunha. Quem viu pode testemunhar. E é aqui que se fundamenta nossa fé. No testemunho dos apóstolos.
"A respeito do Verbo da vida." Aqui vale uma observação. A ênfase de João nessa expressão não está tanto na palavra "Verbo" quanto na palavra "vida". Tanto que "Verbo" não aparece mais na carta inteira, enquanto "vida" aparece sete vezes. O que João anuncia é a mensagem sobre a Vida, e essa Vida tem nome: Jesus Cristo. Ele mesmo disse "eu sou a ressurreição e a vida", e no fim desta carta João vai dizer que "este é o verdadeiro Deus e a vida eterna".
Agora, quem é esse homem que escreve? É o discípulo que recostou a cabeça no peito de Jesus na última ceia. Que ficou ao pé da cruz, o único dos doze que ficou, e viu com esses olhos o sangue e a água saírem do lado trespassado. Que correu ao túmulo na manhã da ressurreição.
Quando ele escreve "nossas mãos apalparam", está dizendo: essas mãos aqui. As minhas.
Versículo 2
"Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos e vos anunciamos a vida eterna que estava com o Pai e nos foi manifestada."
João para no meio do raciocínio para abrir um parêntese. Ele sentiu que precisava explicar como é que algo que existe desde a eternidade pôde ser ouvido, visto e tocado por pescadores da Galileia. E a resposta é essa: porque a vida foi manifestada.
"Foi manifestada." O verbo aparece duas vezes no versículo, no começo e no fim, e nas duas vezes está no aoristo, apontando para o fato histórico da encarnação. A primeira vez ele diz apenas que a vida se manifestou. A segunda vez acrescenta "a nós". Se o Filho não tivesse tomado a iniciativa de se mostrar, ninguém nunca teria visto nada. O homem só conhece de Deus aquilo que Deus resolve tornar conhecido. A encarnação foi iniciativa dele, do começo ao fim.
"A vida eterna que estava com o Pai." Aqui João junta as duas pontas. Aquele que estava com o Pai é o mesmo que foi visto por nós. Essa é a frase que Cerinto não conseguia engolir. Para ele havia o homem Jesus de um lado e o Cristo celestial de outro. João diz que não há separação possível. Aquele que estava com o Pai é exatamente aquele que sentou à mesa com os discípulos, que cansou na beira do poço, que chorou diante do túmulo de Lázaro e que sangrou na cruz. Uma só pessoa.
"Testificamos e anunciamos." Repara que João usa dois verbos para descrever o que os apóstolos fazem, e cada um carrega um tipo de autoridade. "Testificar" é a autoridade de quem viu. Só quem esteve lá pode dar testemunho, e por isso "ver" e "testemunhar" andam sempre juntos no Novo Testamento. Já "anunciar" é a autoridade de quem foi enviado. Os apóstolos não apenas viram Jesus, eles receberam dele uma comissão para falar em seu nome. João reivindica as duas coisas. E é por isso que ele fala com tanta firmeza. O que ele tem a dizer não é uma opinião religiosa nem uma sugestão para se pensar a respeito. É o relato de quem viu, entregue por ordem de quem o enviou.
Versículo 3
"O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo."
Aqui finalmente chega o verbo que ficou suspenso desde o versículo 1: anunciamos.
Três versículos para chegar num único verbo, e esse verbo mostra do que a carta trata. A manifestação histórica de Cristo não foi dada aos apóstolos para eles guardarem. A revelação foi dada a poucos para chegar a muitos. O que foi manifestado "a nós", no versículo 2, vira anúncio "a vocês" no versículo 3.
Mas olha qual é o alvo desse anúncio. João não diz "para que vocês sejam salvos", nem "para que vocês creiam na doutrina correta". Ele diz: "para que também vocês tenham comunhão conosco." A palavra é koinonia, que significa participação numa mesma vida, ter algo em comum no nível mais profundo.
E aí ele completa: "e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo." Essa segunda frase é a base da primeira. A comunhão entre os crentes só existe porque antes existe uma comunhão de cada um deles com Deus. Se você tirar a comunhão com o Pai e com o Filho, o que sobra entre as pessoas da igreja é só amizade, coleguismo, um clube de gente que gosta das mesmas coisas. João não está interessado nisso. A comunhão de que ele fala vem de cima, com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo. Essa mútua interpenetração, inabitação e íntima comunhão entre as pessoas da trindade, vem da eternidade e que chega até nós.
Lembra o que vimos no versículo 1? O Filho estava com o Pai desde a eternidade, em comunhão íntima. Agora João diz que essa mesma comunhão está aberta para nós. Jesus orou por isso na noite em que foi preso: "para que todos sejam um, como tu, ó Pai, és em mim e eu em ti, que também eles sejam em nós". O que João viveu ao lado de Jesus, andando com ele, comendo com ele, ficando ao pé da cruz, essa intimidade era o começo de algo que Deus queria estender para todas as gerações.
Repara também que João diz "com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo", os dois juntos, e usa o nome completo. Isso é uma resposta direta aos que separavam o homem Jesus do Cristo divino. A comunhão é com ambos, e o Filho tem nome e sobrenome: Jesus Cristo. Não dá para ter o Pai sem confessar o Filho, como ele vai dizer mais adiante na carta.
Versículo 4
"Estas coisas vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa."
Vimos que existe uma ordem aqui que vale a pena destacar. Primeiro o anúncio. Este maravilhoso anúncio produz nossa comunhão com o Pai e com os irmãos. E a comunhão desemboca em alegria. Anúncio, comunhão, alegria. Essa é a sequência que João está ensinando.
Alguns manuscritos trazem "vossa alegria" e outros "nossa alegria". A leitura mais provável é "nossa", mas isso não exclui os leitores. É a alegria compartilhada de quem anuncia e de quem recebe, como Jesus falou do semeador e do ceifeiro se alegrando juntos. O apóstolo João escreve porque a sua própria alegria fica incompleta enquanto a igreja dele não está firmada nessa comunhão.
E tem mais uma coisa. João sabe que neste mundo a comunhão nunca vai ser perfeita, e portanto a alegria também não. Por isso esse versículo olha para além desta vida. Calvino chamou isso de "a completa e perfeita felicidade que podemos obter do Evangelho", e ela só vai ser consumada quando a comunhão for consumada, na presença do Pai. Tudo o que João viu e tocou foi anunciado com esse fim: nos levar para uma alegria que não acaba.
AS DOUTRINAS
O Filho eterno assumiu carne real e histórica
O Verbo se fez carne e habitou entre nós, como João diz no evangelho. Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade, como diz Paulo em Colossenses. E Hebreus explica por que isso tinha que ser assim: visto que os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte destruísse aquele que tinha o poder da morte.
Se Jesus não tinha corpo de verdade, então o sangue derramado no Calvário não era sangue de verdade. E sem derramamento de sangue não há remissão de pecados, e você e eu ainda estamos condenados se isso não fosse verdade. Um substituto de aparência não pode carregar pecados reais de pessoas reais. É por isso que João insiste tanto no toque. Ele sabe que a carne de Cristo é o fundamento da nossa paz com Deus.
E se Cerinto estivesse certo, se o Cristo tivesse abandonado Jesus antes da cruz, então quem morreu ali foi só um homem bom. E a morte de um homem bom não salva ninguém, até por que esse homem não existe. O que salva é que aquele que estava com o Pai desde a eternidade foi o mesmo que entregou a vida pelos seus. Verdadeiro Deus e verdadeiro homem, uma só pessoa, sem divisão.
Você está perdoado por algo que aconteceu de verdade, num lugar real que pode ser visitado, num corpo que João tocou com as mãos.
A fé salvadora nasce do testemunho apostólico
Paulo diz em Romanos que a fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo. Essa é exatamente a lógica de 1 João 1.
Aqui João não manda ninguém procurar Deus no fundo do próprio coração, nem buscar uma iluminação interior como os falsos mestres prometiam. Ele diz "o que ouvimos, anunciamos a vocês". A fé cristã tem um objeto que está fora de nós: Cristo, manifestado na história, testemunhado pelos apóstolos, preservado nas Escrituras e pregado pela igreja. O Espírito Santo usa essa Palavra para gerar fé no coração do homem caído.
Pedro escreve a mesma coisa quando diz que não seguiu fábulas engenhosamente inventadas, mas que foi testemunha ocular da majestade de Cristo. Lucas abre o evangelho dizendo que recebeu tudo dos que foram testemunhas oculares desde o princípio. E Paulo enumera as aparições do ressuscitado: a Pedro, aos doze, a mais de quinhentos irmãos de uma vez, muitos dos quais ainda estavam vivos quando ele escreveu.
E é isso que nos faz livres, não precisamos fabricar fé nem se trabalhar emocionalmente para crer. A rocha está fora de você, e é justamente por isso que ela não se move quando o seu coração balança. A sua fé se apoia no testemunho de um homem que ficou ao pé da cruz enquanto todos os outros fugiam.
O alvo da salvação é a comunhão com o Deus Trino
O Evangelho começa no perdão dos pecados. O perdão que abre a porta, e do outro lado da porta está a comunhão com o Pai e com o Filho e com seu Corpo.
Jesus definiu a vida eterna assim: "que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste". Conhecer, no sentido bíblico, é ter comunhão. Paulo escreve aos coríntios que Deus é fiel, e por ele vocês foram chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo. E a promessa que atravessa toda a Escritura, desde Abraão até a nova Jerusalém, é sempre a mesma: eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.
Não é uma relação de patrão e empregado, nem de juiz e réu que foi absolvido e mandado embora. É de Pai e filho. Aquele que estava com o Pai desde a eternidade veio buscar você para dentro dessa mesma comunhão. E João diz que ela está aberta agora, nesta vida, para todo aquele que crê no testemunho apostólico.
AS APLICAÇÕES
Para os dias em que Deus parece distante
Todo crente conhece esses dias. A oração parece fria, a Bíblia parece um livro fechado cheio de mistérios alheios ao homem, e a fé parece mais um esforço do que uma realidade que flui naturalmente de nosso ser.
Nesses dias, volte para 1 João 1:1. Um homem velho, que sobreviveu a todos os amigos, escreve: eu o vi, eu toquei. A sua fé não está pendurada nos seus sentimentos de hoje. Ela está ancorada no testemunho de quem estava lá. Você pode falar para o seu íntimo, para a sua alma, como o salmista fazia: espera em Deus, porque ainda vou louvá-lo.
Para o exame do coração
Essa comunhão com o Pai e com o Filho que João descreve: ela é a realidade da sua vida, ou só mero vocabulário dela?
É perfeitamente possível frequentar a igreja, saber a doutrina, cantar os hinos e não ter comunhão nenhuma com Deus. Os que saíram, em 2:19, tinham estado dentro. Conheciam todas as palavras, mas a saída deles mostrou que a relação nunca tinha sido real.
O restante da carta vai apontar as marcas de quem está de fato em comunhão com Deus, e são basicamente três: crer que Jesus é o Cristo vindo em carne, obedecer aos mandamentos e amar os irmãos. Pergunte ao seu coração se essas marcas estão lá. E peça que Deus mesmo faça esse exame, porque ele sonda melhor do que nós.
Para valorizar a Palavra pregada
Se o testemunho apostólico é o meio pelo qual Deus nos traz para a comunhão com ele, então o momento mais importante da sua semana é quando esse testemunho é pregado com fidelidade. Pode não ser o mais emocionante, mas é o mais importante.
Não venha ao culto só em busca de uma experiência, ou melhor, não venha em busca de sensações ou experiências. Venha em busca de uma Palavra. Porque quando a Escritura é pregada com fidelidade, João ainda fala, pois o Espirito Santo falou por meio dele. O último dos apóstolos aponta para a sucessão ininterrupta da herança da fé. Essa herança chegou até você através do púlpito. Zele por essa herança.
Para a vida da igreja e o seu testemunho
João não guardou o que recebeu. A revelação foi dada a poucos para muitos, e essa continua sendo a lógica do Evangelho.
Isso vale primeiro para a igreja. Se a comunhão entre os irmãos nasce da comunhão com Deus, então a igreja não pode se contentar com um convívio social agradável. E também não pode se contentar com uma evangelização que não traz as pessoas para dentro da comunidade. Anúncio verdadeiro produz comunhão verdadeira. Se o nosso anúncio não está produzindo isso, alguma coisa está errada no anúncio.
Essa comunhão, não busca ser consumidor, mas busca a glória do outro. Pense em uma árvore que dá bons frutos e após concebe-los, ela mesma o saboreia dizendo: "que fruto delicioso este que produzi". Não! Assim é a vida de comunhão dos Santos em Cristo. Um buscando servir o outro, sem buscar a seu próprio interesse, mas buscar o interesse do outro em amor. Assim como o Deus trino se relacionou com as pessoas da trindade na eternidade, cada pessoa buscando glorificar a outra. Assim devemos conviver, e é isso que o testemunho do apostolo João nos ensina hoje.
Tem alguém na sua vida que precisa ouvir o que você ouviu. Não precisa ser um argumento sofisticado. Pode ser o seu testemunho simples: eu estava perdido, alguma coisa aconteceu, deixa eu te contar. Pedro e João disseram diante do Sinédrio que não podiam deixar de falar das coisas que tinham visto e ouvido. Você não viu com os olhos, mas recebeu o testemunho de quem viu. Isso já é o suficiente para falar. Fale, pregue a palavra.
CONCLUSÃO
Buzz Aldrin era cristão. Presbítero da sua igreja no Texas.
Em 20 de julho de 1969, depois de pousar na Lua e antes de abrir a escotilha, Aldrin fez algo que a NASA tentou manter em silêncio.
Ele tirou do bolso um pequeno pacote com pão e um copinho de vinho, junto com uma carta do seu pastor. E tomou a Ceia do Senhor. Sozinho, dentro do módulo Eagle, a 384 mil quilômetros da Terra.
Depois ligou o rádio e disse: "Houston, aqui é o módulo lunar. Gostaria de pedir alguns momentos de silêncio para que cada pessoa, onde quer que esteja, possa refletir sobre o que aconteceu e dar graças à sua maneira." E leu João 15:5: "Eu sou a videira, vocês são os ramos."
O primeiro alimento consumido na Lua foram os elementos da Ceia do Senhor.
Aldrin disse depois que queria expressar que o que o homem estava fazendo naquela missão ia além de eletrônica, computadores e foguetes. Ele queria dizer que onde quer que a gente chegue, a comunhão com Deus é maior do que qualquer conquista humana.
Aquela magnífica desolação que ele descreveu lá fora não foi capaz de isolá-lo de Deus. Porque a comunhão com o Pai não depende de onde você está. Depende de quem morreu e ressuscitou para abrir a porta. E se ele ainda estivesse na Lua hoje, o salmista diria que até lá o Senhor estaria com ele.
João ficou ao pé da cruz quando todos os outros fugiram. Viu o sangue, viu a morte, viu o lado trespassado. E sobreviveu a todos os seus irmãos para escrever para você:
"O que era desde o princípio, anunciamos a vocês."
Uma pessoa real, um evento histórico, um testemunho confiável. E com esse testemunho vem um convite para entrar na comunhão com o Pai e com o Filho, e para provar a alegria que só se completa na presença dele.
Creia. Entre. Fique.
"A nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo."
1 João 1:3
Soli Deo Gloria.
Sobre Lucas Lauriano
Cristão, casado, engenheiro de software e seminarista no Seminário Martin Bucer. Formado em Sistemas de Informação, transito entre tecnologia e teologia, com muito rock’n roll como trilha sonora dessa dádiva chamada vida.




